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Ghana: Exhibición "Más allá del horizonte"

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ghana: Exhibición "Más allá del horizonte"

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La SGI de Ghana presentó la exhibición "Más allá del horizonte" en la Universidad Marítima Regional, con sede en Accra, afiliada a la Organización Marítima de África Central y Occidental, del 7 al 10 de septiembre de 2009, gracias al patrocinio de la Asociación Internacional de Educación Náutica. El acto inaugural contó con la presencia de la viceministra de Transportes de Ghana, Dzifa Ativor.


Desde su creación en 1994, la colección de fotografías de paisajes oceánicos y portuarios tomadas por integrantes del grupo Hato-kai de la Soka Gakkai, compuesto por personas que trabajan en el ámbito naviero, ha sido vista ya en once países, siendo esta la primera vez que se exhibe en el continente africano. En esta oportunidad, en adición a las sesenta y ocho fotografías del Hato-kai, figuraron diez del presidente de la SGI, Daisaku Ikeda, pertenecientes a la exposición itinerante "Diálogo con la naturaleza".


[Fuente informativa: Seikyo Shimbun, diario de la Soka Gakkai, Japón. Artículo publicado el 17 de septiembre de 2009.]

SGI-Nigéria comemora 25 anos, membros reúnem-se em toda a África

segunda-feira, 16 de março de 2009

Em 25 de outubro de 2008, membros da SGI-Nigéria de todo o país reuniram-se em Abuja, capital da Nigéria, para celebrar o 25º aniversário da organização. A SGI-Nigéria hoje possui 18 distritos locais com cerca de 500 membros. A convenção anual foi pautada pelo tema "Tornar-se Pessoa Capaz para Criar o Século da África".

Na atividade houve uma exposição combinada sobre Carta da Terra, Diálogo e Século da África; uma apresentação do grupo Jovens Leões intitulada "Myoho está em mim"; um exercício sobre aptidões para o diálogo ministrado por um diretor de escola; debates sobre a aquisição de capacidade; e uma peça intertribal. O dr. Bamgboye Afolabi, líder da SGI-Nigéria, proferiu discurso incentivando todos a fortalecerem a prática e o estudo do Budismo Nitiren.

O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, enviou uma mensagem para a ocasião, solicitando aos membros que se unam e contribuam para suas comunidades como cidadãos exemplares, e pedindo também que expandam seu círculo de amizades. Os eventos do dia espelharam a convicção de longa data de Ikeda de que a herança cultural africana pode contribuir para o mundo no que se refere à coexistência, à sabedoria e ao diálogo.

Os membros da SGI de Benin reuniram-se para uma cerimônia no dia 2 de novembro, em Cotonou, capital econômica e maior cidade do país. Nos dias 8 e 9 do mesmo mês, a SGI-África do Sul promoveu um encontro em Johanesburgo, que contou com a participação de membros da SGI de países vizinhos como Moçambique e do Reino do Lesoto. Juntos, eles estudaram a proposta de paz de 2008 de Ikeda, "A Humanização da Religião, a Criação da Paz". Para festejar 18 de novembro, dia da Fundação da Soka Gakkai, aproximadamente 1.200 membros da SGI-Gana e seus familiares e amigos reuniram-se no dia 16 de novembro por todo o país. A SGI-África do Sul realizou celebrações no dia 16 de novembro na Cidade do Cabo, e a SGI-Uganda, no dia 22 de novembro em Kampala.

[Adaptado de um relatório da SGI-Nigéria e de um artigo da edição do Seikyo Shimbun, da Soka Gakkai do Japão, de 23 de dezembro de 2008]
 
BSGI - Extranet
 
NOTA:
Matéria antiga, mas não posso deixar de arquivar aqui no blog!!
I wish to contact Nigerian Members of Soka Gakkai International
 
 

O budismo e as religiões afro-brasileiras

quarta-feira, 11 de março de 2009

"..... o diálogo não enfraquece a fé, mas a disponibiliza para encontros que desvelam novas e mais profundas dimensões de sua realização."1 (Faustino Teixeira)

A forte presença das religiões afro-brasileiras



Assim como a cultura indígena, a cultura africana está dentro de nós, brasileiros. Está misturada ao nosso sangue. Circula por nossas veias. Está presente na formação da nossa subjetividade, do nosso eu, nas artes plásticas, na música, na espiritualidade, na produção de alimentos, enfim, em todos os nossos hábitos, costumes e crenças.

Quer ainda marcadas pela sincretização com o catolicismo, quer contaminadas pelo "branqueamento", as religiões afro-brasileiras, muitas vezes reafricanizadas, encontram-se espalhadas pelo Brasil, assumindo caráter de religião universal.

Nesse sentido, podemos citar o candomblé de caboclo e de egum da Bahia (recentemente, com presença marcante em São Paulo); o xangô de Pernambuco e Alagoas; o tambor-de-mina do Maranhão e Pará; o batuque do Rio Grande do Sul; a macumba do Rio de Janeiro; a umbanda, espalhada em todo o território nacional; além de outras — o catimbó, a jurema, a pajelança, que apresentam fortes elementos indígenas e aparecem no Norte, de modo mais expressivo, no Amazonas.

Esta presencialidade das religiões afro-brasileiras em todos os recantos destas "Terras de Santa Cruz" impõe-nos, como seguidores de um outro caminho de espiritualidade, o do Budismo Nitiren, a necessidade de conhecê-las, pelo menos elementarmente. Dessa forma, na convivência com seus membros, adeptos ou fiéis, nossa compaixão com eles não esbarrará nos limites do histórico preconceito a que nos acostumamos ver em razão do sistema escravocrata que tantas cicatrizes deixou no nosso povo.

A sobrevivência, a consolidação e a expansão das religiões afro-brasileiras são a expressão da resistência e da vitória do povo escravizado contra seus opressores. Não ocorreu gratuitamente, fácil, sem luta. Do pujante e vigoroso candomblé da Bahia à pajelança do Amazonas e Piauí, as religiões afro-brasileiras carregam manifestações do sofrimento de um povo heróico, como é o povo negro, que, mesmo sob a opressão, soube preservar suas milenares tradições.

O diálogo possível entre duas distintas visões de mundo



Por ocasião do Encontro Nacional de Representantes de Divisão, em Tóquio, no dia 31 de maio de 2007, Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), na presença de ilustres personalidades acadêmicas russas, revisitando Leon Tolstoi, um dos seus escritores preferidos, reafirma sua convicção de que "o diálogo é a única forma de construir a paz".2 Em 2001, na proposta de paz encaminhada às Nações Unidas, Ikeda enfatiza: "O diálogo tem o poder de restaurar e reflorescer nossa humanidade comum ao liberar nossa capacidade inata para o bem. É um ímã indispensável em torno do qual as pessoas se aproximam e a confiança é fortalecida. Foi o fracasso em tornar o diálogo a base da sociedade humana que produziu as amargas tragédias do século XX".3

Como grande pensador, Ikeda é dos que conseguem relacionar tudo a uma visão unitária e coerente, que funciona como um princípio organizador básico do que pensam e percebem. Em vários dos seus discursos, alinha-se com aqueles que acreditam que as tradições religiosas "guardam um patrimônio único de reverência e respeito pelo mistério da existência e o dom da vida".

Além disso, ele entende que "as religiões podem contribuir para o fortalecimento da solidariedade, do cuidado, da cortesia e da hospitalidade" — valores substituídos pelo egoísmo, pela nefasta competitividade, pela perversa corrida na busca do ter, do poder e do valer.

Do lado de cá do planeta, o emérito professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dr. Faustino Teixeira, em entrevista sobre a importância do diálogo inter-religioso, afirma: "O diálogo surge como potente voz em favor de todo o criado: dialogar para não morrer e não deixar morrer". E acrescenta: "Outra fundamental dimensão do diálogo que se processa no encontro da experiência religiosa é o momento sublime em que se partilham as experiências de oração, fé e contemplação, na busca singular do Mistério sempre maior. Os que partilham semelhante experiência 'não se detêm diante das diferenças', pois estão animados por um propósito mais decisivo, o de promover e preservar os valores e ideais espirituais mais profundos do ser humano".4

A palavra de ordem do mundo atual, se quisermos, realmente, construir a paz, é substituir a ética do êxito ou das convicções por uma ética de responsabilidade. Isso redireciona o comportamento das religiões, que se encontram num processo de nova reflexão sobre o humano.

Hans Kung, renomado teólogo e filósofo contemporâneo, aponta dois critérios utilizados atualmente para se avaliar uma religião: o positivo e o negativo. Sob a perspectiva do critério positivo, uma religião é verdadeira e boa quando está a serviço da humanidade, no ato de fomentar a identidade, a sensibilidade e os valores humanos, para permitir ao indivíduo a oportunidade de alcançar uma existência rica e plena. Ou seja, precisa garantir o desenvolvimento humano em dimensões psicofísica e individual-social (vida, integridade, liberdade, justiça, paz). O contrário disso (critério negativo) ocorre quando se observa a falsidade e malevolência de uma religião, que provoca desumanidade ao ignorar a identidade, a sensibilidade e os valores humanos. É uma religião que priva o indivíduo de uma existência rica e plena, oprime, fere e destrói os homens em sua dimensão humana psicofísica e individual-social.5

Espiritualidade, mística e religião



Falar sobre religiões afro-brasileiras, sob o ângulo da mística comparada, requer que se tenham claros os conceitos de espiritualidade mística e religião. Buscaremos um caminho que leve à reflexão acerca desses conceitos, assinalando pontos convergentes e divergentes em relação à mística do Budismo Nitiren e das religiões afro-brasileiras.

Não cabe discutir instituições, organizações religiosas, associações civis, estruturas burocráticas e de poder, sedes, templos e terreiros. Essas são apenas estruturas instrumentais, são meios necessários, indispensáveis para que se concretizem os ideais professados pelas religiões; são a materialização de intenções.

O que, na realidade, importa é o coração das pessoas. É aí que reside a espiritualidade. É no coração que se encontra a mística.

Espiritualidade



Espiritualidade convém definirmos no contexto da nossa cultura, dos dramas que estamos vivendo em termos mundiais. O professor e doutor em teologia e filosofia, Leonardo Boff, afirma: "Espiritualidade é aquilo que produz no ser humano uma mudança interior". É um caminho de transformação. E acrescenta: "A espiritualidade vive da gratuidade e da disponibilidade, vive da capacidade de enternecimento e de compaixão, vive da honradez em face da realidade e da escuta da mensagem que vem permanentemente desta realidade. Quebra a relação de posse das coisas para estabelecer uma relação de comunhão com as coisas".6

A espiritualidade é uma dimensão do ser humano. Não é monopólio de nenhuma religião. Nem depende de religião alguma. Embora a religião seja o seu lugar natural.

Diversas pessoas não se filiam a nenhum tipo de religião e, mesmo assim, possuem ou são ricas de espiritualidade.

Enquanto outras, muitas vezes, dirigentes de organizações religiosas, padres, pastores, líderes de instituições, levam uma vida que não pode ser exemplo. Ainda que afirmem professar uma religião, não comprovam sua crença na vida diária. Ao contrário, mesmo exercendo funções de direção na instituição religiosa de que se dizem seguidores, contribuem para maculá-la com suas atitudes nas relações de convivência com os outros. E o mais grave, não aceitam mudar. Negam transformar-se. A postura ético-moral, na sociedade, deixa a desejar, sobretudo em questões afetivas. Na família, é uma desavença só. Esposa reclama do esposo; esposo menospreza, briga e subjuga a esposa; filhos discutem desrespeitosamente com os pais; na vizinhança, ninguém gosta; na organização religiosa, essas pessoas são autoritárias, briguentas, desmerecem a confiança de todos, alimentam-se de competir, disputar cargos, obter prestígio perante os dirigentes hierarquicamente superiores. É um verdadeiro vale-tudo. O que menos demonstram é magnanimidade, benevolência, bondade, amizade, ternura, carinho. Essa falta de espiritualidade impede a harmonia não apenas na vida dessas pessoas como em todo o ambiente que as cerca.

Mística



Mística, seguindo a linha de pensamento de Leonardo Boff, é uma dimensão do ser humano. É o que dá impulso à vida, alimenta as energias vitais para além do princípio do interesse, dos fracassos e sucessos. Tanto a espiritualidade como a mística pertencem à vida, em sua integralidade e sacralidade.

Para Boff, "a mística é a própria vida tomada em sua radicalidade e extrema densidade. Cultivada inconscientemente, confere à existência sentido de gravidade, leveza e profundidade. A mística sempre nos leva a suspeitarmos que, por trás das estruturas do real, não há o absurdo e o abismo que nos metem medo, mas vigem a ternura, acolhida, o mistério amoroso que se comunica como alegria de viver, sentido de trabalhar e sonho benfazejo de um universo de coisas e pessoas confraternizadas entre si e ancoradas fortemente no coração de Deus, que é Pai e Mãe de infinita bondade".7 A mística vem do coração, não da razão.

É por esse motivo que o mundo construído a partir da razão, que teve na filosofia de Descartes e na Física de Newton seus pilares, não deu certo. Ao contrário, mergulhou a humanidade na maior das crises de toda a sua história — a chamada "crise da racionalidade",8 acompanhada de manifestações fenomenológicas de caráter massivo, tais como: vazio, solidão, medo, ansiedade, agressividade sem objetivos, insatisfação generalizada. Nitiren Daishonin, o Buda Original, muito antes e bem distante desta civilização materialista, hedonista e consumista na qual vivemos já afirmava que "o que importa é o coração".

Religião



Carl Gustav Jung entendia a religião como uma atitude do espírito humano. Para ele, tal atitude é responsável por levar o ser humano à consideração e à observação cuidadosa de alguns fatores dinâmicos, como espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais. Afirmava que "o termo 'religião' designa a atitude particular de uma consciência transformada pela experiência do numinoso",9 ou seja, inspirado ou influenciado pelas qualidades transcendentais do divino.

Como mestre da psicologia do profundo, Jung atribuía considerável relevância à religião no processo de individuação dos seres humanos à medida que trabalha grandes sonhos e projeta grandes esperanças. Dizia que a religião está na raiz da mística e da espiritualidade. Sobre religião e espiritualidade, Daisaku Ikeda, comentando a fala do narrador e principal personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, diz: "Confesso que fiquei muito impressionado quando me deparei com a afirmação do jovem jagunço Riobaldo, numa trégua de suas lutas no sertão do Brasil: 'Eu queria formar uma cidade da religião. Lá nos confins do Chapadão, nas pontas do Urucuia'. Jamais esquecerei a perturbadora emoção que senti diante desta enérgica expressão, de sonoridade cósmica. Em que lugar do mundo a religião se manifesta de forma tão vigorosamente viva? Reconheçamos que, neste fim de século, as religiões já não têm a mesma força de outrora. Encontram-se enfraquecidas pela torrente da secularização. Estão perdendo a espiritualidade, escondida no íntimo envergonhado das pessoas. Atravessam altos e baixos efêmeros com seus ensinamentos duvidosos. Muitas práticas confundem-se com o ocultismo, ou funcionam como gêiser, cuja energia explode inesperadamente, gerando conflitos sangrentos. A imagem que atualmente se tem da religião é, na maioria das vezes, negativa. Sendo raros os casos, como o de Riobaldo, em que a religião é abraçada como fonte da esperança".10

A espiritualidade que veio da África



Para muitos, cinco milhões de homens e mulheres escravizados vieram da África para o Brasil. Outras estatísticas dão conta de mais de três milhões de negros que foram transportados escravizados da Nigéria, Daomé (atual Benin), Angola, Congo e Moçambique, para o nosso país, nos séculos XVI e XIX. O Brasil foi o segundo maior importador de escravos do Novo Mundo.

Foram milhões de famílias desagregadas, dispersas à força, com seus membros, pais, filhos, maridos, mulheres espalhados pelas mais diversas localidades do Brasil.

A política da colonização portuguesa de dividir para governar levava os portugueses a separar os escravos em diferentes nações.11 Mesmo assim, muitos conseguiram manter alguns laços com sua herança étnica. Embora sejam várias as denominações religiosas afro-brasileiras, conforme vimos, o candomblé e a umbanda são consideradas as mais representativas.

O candomblé, hoje, tornou-se religião universal, reafricanizada, ou seja, libertou-se do sincretismo e decretou o seu retorno às verdadeiras origens africanas.

Já a umbanda, ao contrário, fundada, em meados de 1920, para ser uma religião brasileira, reuniu elementos do candomblé, do catolicismo e do espiritismo kardecista, na tentativa de "branquear" a tradição religiosa africana.

É relativamente recente o fenômeno do aparecimento das religiões afro-brasileiras. Isso porque os negros eram proibidos de praticar outra religião a não ser o catolicismo. O primeiro terreiro de candomblé no Brasil surgiu na Bahia, por volta de 1830.

A periferia urbana brasileira, onde os escravos tinham maior liberdade de movimento, organizando-se em nações, foi o local em que apareceram as novas religiões. Então, espalharam-se por todo o Brasil, tomando diversos nomes: catimbó, tambor-de-mina, xangô, candomblé, macumba, batuque e outros.

O sagrado, a natureza e a cultura oral



Assim como na Grécia antiga, religião, arte, trabalho não se separam na cultura africana. Tudo se funde em um todo integrado que é a vida da tribo.

O sagrado africano descreve a profunda ligação entre o homem e o Cosmo, cuja base é material e concreta. Nota-se que a relação dos africanos com o sagrado se dá em articulação com a natureza e seus elementos (terra, ar, fogo e água). Para expressarem suas dificuldades cotidianas ou milenares, os africanos estabelecem comunicação com os astros, com a flora e com a fauna circundantes. O calendário espiritual é organizado de acordo com as estações da natureza, que delimitam o calendário agrícola e a vida das tribos. Por conseqüência, o espaço natural transforma-se, circunstancialmente, em ritual.

As religiões afro-brasileiras são portadoras de vasta visão de mundo representada pela própria descrição dos orixás.12

No candomblé, a vida é celebrada nas cerimônias anuais, dedicadas a cada orixá; nos rituais de iniciação,13 de nascimento, casamento e nos ritos fúnebres. Aliás, as cerimônias fúnebres têm lugar especial; vinculam-se ao próprio equilíbrio da vida. Acredita-se, no candomblé, que a morte seja como um momento de transformação da vida, não sua extinção. O corpo, após a morte, se reintegra ao Universo, e o espírito continua a revigorar o grupo e o sistema.

Em relação ao sacrifício, como oferenda, ocorre para conservar o equilíbrio entre o plano visível e o invisível, garantindo o fluxo da vida. Muitas vezes, o sacrifício é para aplacar as divindades ou para se proteger dos inimigos. Oferecem-se animais domésticos na crença de que os órgãos internos destes animais possuem forças especiais. O sangue é oferecido como dádiva agradável à divindade.

O círculo que se estabelece entre o adepto, o sacrifício e o orixá visa principalmente a transmitir e revigorar o axé. Oferecendo a vida ao orixá, é o próprio ser humano que permanece revigorado. A vida circula reforçando-se e assegurando, a quem oferece, a realização do ciclo vital, até o alcance da harmonia eterna.

O nascimento dos orixás



Em uma das suas principais obras, o professor e pai-de-santo José Ribeiro assim descreve como nasceram os orixás: "Do consórcio de Obatalá (céu) e Odudua (terra), nasceram os deuses orixás — Aganju, considerado como a rocha; e Iemanjá, representando as águas. Do conúbio (casamento) de ambos, originou-se o orixá Orugã, intermediário entre o céu e a terra. Na ausência de Aganju, Orugã rapta e viola Iemanjá. Esta, aflita e entregue ao desespero, foge à perseguição do filho, e, na alucinação da fuga, tomba morta, nascendo-lhe dos enormes seios, 'duas correntes d'água, que, reunidas mais adiante, formam 'um grande lago'. De seu ventre desmensurado, provieram os seguintes orixás: Dadá (deusa ou orixá dos vegetais); Xangô (deus do trovão); Ogum (deus do ferro e da guerra); Olokum (deus do mar); Oloxá (deusa dos lagos); Oiá ou Iansã (deusa do rio Niger); Oxum (deusa do mesmo rio); Obá (deusa do rio Obá); Okô (deus da agricultura); Oxóssi (deus dos caçadores); Okê (deus das montanhas); Ajé-Xalugá e Ochambin (deuses da saúde); Xapanã (deus da varíola); Orum (o Sol) e Oxu (a Lua)".14

O axé



O axé ou ixé é o objeto consagrado que tem força espiritual.

Quando, por exemplo, termina a iniciação de um filho-de-santo, para provar sua força espiritual, coloca-se um copo d'água na mão, sacudindo-o; a água fica impregnada de influências benéficas, curativas. É o axé.

Os axés são também os amacis, preparados com as ervas dos orixás, destinadas a diversos fins.

O transe na religiosidade afro-brasileira



O transe é um estado psicofisiológico parecido com o sono, caracterizado pela diminuição ou ausência de percepção conscientizável e de resposta aos estímulos do meio ambiente. No transe, a atividade voluntária é substituída por comportamentos automáticos.

O transe é uma característica central das místicas das tradições religiosas da África Ocidental Iorubá, Fon etc., que mais marcaram a religiosidade afro-brasileira. É a tomada do corpo pelo santo (orixá).

Há uma enorme variedade de formas de transe, e o adepto vai introjetando os vários modos de relação com os orixás e voduns ao longo de sua vida, de acordo com os graus de iniciação por que passa.

No transe, o Outro se enuncia em primeira pessoa e sua natureza semiótica não exclui sua dimensão psíquica; ao contrário, a inclui. Um fator muito interessante, que pode ocorrer simultaneamente, é a presença dos sonhos e visões, aceitas, num contexto geral, como mensagens, ou outras formas de contato com os deuses. Em termos científicos, o transe tem se tornado matéria de estudo para a psicanálise, a metapsicologia, a psicologia social psicanalítica e outras.

O "branqueamento" das religiões afro-brasileiras



No final do século XIX, surge no Brasil, proveniente da França, o espiritismo de Alan Kardec. Uma fusão entre a visão cármica do mundo, de origem hindu e preceitos cristãos, acrescido de conceitos racionalistas do século XIX. Esta nova religião imediatamente se firmou no Brasil, tornando-se, no início, uma religião de classe média, embora freqüentada também por pobres e por negros.

A presença dos negros nos centros espíritas do Rio de Janeiro representava, ao mesmo tempo, a presença de tradições do candomblé. Era fator motivador de grandes polêmicas e conflitos nas casas espíritas; isso devido ao modelo de religião ser europeu, o que correspondia à ausência de elementos da religiosidade africana.

Essa situação de conflito abriu campo, em meados de 1920, a uma nova religião: a umbanda. Podia-se entendê-la como a fusão entre espiritismo kardecista, catolicismo, candomblé, além de outros elementos nacionais, como os caboclos e pretos velhos, espíritos de índios e de negros.

A umbanda, por um lado, buscou apagar os traços da cultura africana, presentes em sua formação. Tomou como modelo o kardecismo e procurou expressar ideais e valores da nova sociedade capitalista e republicana. Muitas foram as modificações: a língua vernácula foi adotada; a iniciação, simplificada; e os sacrifícios de sangue, quase totalmente eliminados. Por outro lado, além de manter os ritos cantados e dançados do candomblé, a umbanda seguiu com a idéia dele. Ou seja, com o juízo de que a experiência neste mundo implica a obrigação de gozá-lo, o pensamento de que a realização do homem se expressa por meio da felicidade terrena que ele deve conquistar, questionando, dessa forma, a noção kardecista da evolução cármica (o que somos hoje depende de como agimos numa vida passada).

Colocando-se como uma religião capaz de oferecer um instrumento a mais para apoiar seus adeptos no esforço em mudar as circunstâncias a seu favor, a umbanda oferece a manipulação do mundo pela via ritual. Foi graças à umbanda que as grandes cidades do Sudeste do Brasil conheceram o despacho a Exu, oferenda depositada nas encruzilhadas.

A espiritualidade budista: semelhanças e divergências



Para definir a espiritualidade budista, o professor e doutor Leonardo Boff descreve as diferenças entre os caminhos de espiritualidade ocidental afirmando: "O Oriente fez outro caminho, de certa forma mais grandioso que o nosso, porque mais ancestral e englobante. A primeira experiência que a pessoa, o monge, o professante de um caminho espiritual do Oriente faz é o da totalidade; vale dizer, da unidade da realidade. As coisas não estão colocadas umas ao lado das outras, em justaposição, mas são todas sinfônicas, interligadas. Há uma grande unidade, mas uma unidade complexa, feita de muitos níveis, de muitos seres diferentes, todos eles ligados e religados entre si, num profundo e intenso dinamismo.

Quando o mestre Iogue pergunta: "Quem és tu?", ele aponta o Universo e responde: "Tu és tudo isso, nós somos toda essa realidade, somos parte e parcela do todo, somos o todo".15

"Enquanto o caminho espiritual do Oriente busca a interioridade do ser humano, nosso caminho ocidental busca a exterioridade. Um é o caminho para fora, para a conquista do espaço exterior, alcançando os últimos limites, demandando o infinito do céu acima de nossa cabeça. O outro é o caminho para dentro, pelos meandros de nossos desejos, pela profundidade de nossas intenções, rumo ao próprio coração."16

Podemos assim dizer que existem grandes diferenças da espiritualidade budista em relação à afro-brasileira. A começar, sob o ponto de vista do budismo, pela negação da dualidade corpo-espírito e da existência, em separado, do bem e do mal. Outra relevante distinção é a presença de mediações (orixás) que se põem entre as pessoas e a divindade suprema Olorum. Destaca-se também a presença do transe, fato que não ocorre no budismo.

Por outro lado, a concepção do "eu", a visão da subjetividade, de acordo com o budismo, é bastante parecida com a visão dos africanos. Na espiritualidade budista, o "eu" é sacralizado, ou seja, é a pessoa que possui, como natureza última, sua fonte originária, a natureza de Buda; ela é sagrada, em si mesma, não importando a condição de vida ou os estados de consciência em que se encontre. E, ainda, tal sacralização é estendida a todo o Cosmo. O "eu" possui, ainda, natureza interdependente. Não se constitui de essência própria, inerente a si mesmo.

O africano é um "ser com" e "vive com". Fora da comunidade, sente-se isolado, ameaçado, desamparado e perdido. Encontra sua força vital, seu sentido, seu potencial de ser enquanto se encontra unido a outros, visíveis e invisíveis. Fora da dimensão relacional, só existe confusão e morte. Daí, os princípios éticos dos africanos estarem enraizados em conceitos-chave como vida, solidariedade clânica, força e harmonia.

Outras semelhanças existem entre as tradições afro e o budismo. A maior delas é a visão de mundo profundamente ecológica dos caminhos afro de espiritualidade. Basta observar o nascimento dos orixás. Como está presente a natureza, o Cosmo!

Inclui-se, neste item, a sacralidade da natureza e do Cosmo como uma convergência com a espiritualidade budista.

O próprio axé, energia cósmica que penetra todo o Universo, concentrando-se no ser humano, pode ser associado ao Myoho-rengue-kyo. Esta é a Lei Mística, energia suprema, fonte originária de tudo; a tudo permeia e impregna; está presente não apenas nos seres humanos mas até nas unidades subatômicas do Universo.

Outra semelhança entre os dois caminhos de espiritualidade, aqui postos em paralelo, é a relação mestre e discípulo. Tanto na relação entre o santo de cabeça e seu filho, cuja descrição é parecida com a relação mestre e discípulo do 7º capítulo do Sutra de Lótus, "Parábola da Cidade Imginária,17 como na relação de ternura, carinho, amizade, proteção e cuidado que os pais-de-santo empreendem com seus filhos e filhas. Aliás, este é dos aspectos mais belos do candomblé e é esta relação que, em nossa comunidade religiosa, cada dirigente deve manter com seus membros. Uma relação horizontal, de ternura, cuidado, carinho; acima de tudo, de compaixão.

O presidente Ikeda, ao falar sobre a imperiosa necessidade de sabermos transcender as diferenças em realidades da vida diária, o que significa "atingirmos um estado no qual não somos mais presos nem constrangidos por nossa consciência da diferença", afirma: "Nitiren considera que a essência real da vida 'não pode ser queimada pelas chamas no fim de um kalpa, nem arrastada pelas inundações nem cortadas por espadas nem perfurada por flechas. Ela cabe numa semente de mostarda e, embora a semente de mostarda não possa se expandir, não há necessidade de a vida encolher. Ela enche todo o Universo. O Cosmo não é tão vasto nem a vida tão pequena para caber dentro dele'". 18

Comentando a passagem citada dos escritos de Nitiren Daishonin, explica: "O que é descrito aqui é um estado de vida perfeitamente claro, translúcido, indestrutível e luminoso".19

Pode-se descrever a espiritualidade budista como o permanente esforço para compreender que todos os seres, sem exceção, são budas; compreensão esta que permite a transformação no estado fundamental da vida da pessoa.

Nesse sentido, a fé não pode ser apenas um sentimento da alma humana. É a entrada do homem na realidade, "na realidade inteira, sem cortes nem abreviações".20

Na carta "Sobre atingir o estado de Buda nesta existência", consta: "A vida, em cada momento, permeia todo o mundo fenomenal e é revelada em todos os fenômenos".21

É com esse sentimento do encontro, do mergulho na totalidade do real, o olhar da fé, que devemos lançar nosso olhar sobre as religiões afro-brasileiras. Temos de vê-las em sua integralidade, sem cortes, sem abreviações. Assim, veremos serem estas tradições fenômenos constitutivos da realidade, portanto, permeadas pela vida, conseqüentemente, prenhes do Myoho-rengue-kyo. Julgá-las utilizando categorias inerentes a outras culturas, como faz o olhar do imperialismo cultural, é alimentar a cultura de guerra em vez de construir a paz.

NOTAS 1. TEIXEIRA, Faustino. Entrevista ao IHU On–Line, ano 5, nº 133, 21 de março de 2005. 2. Brasil Seikyo, edição nº 1.910, 4 de outubro de 2007, p. A3-A4. 3. IKEDA, Daisaku. Desafio de uma Nova Era — Paz. São Paulo: Brasil Seikyo, 2001, p. 186. 4. TEIXEIRA, ibidem. 5. Cf. KUNG, Hans. Teologia a Caminho – Fundamentação para o diálogo ecumênico. São Paulo: Paulinas, 1999, p. 279-280. 6. BOFF, Leonardo. Espiritualidade – Um caminho de transformação. Rio de Janeiro: Sextante, 2001. 7. BOFF, Leonardo. Mística e Espiritualidade, 4ª ed., Rio de Janeiro: Rocco, 1999, p. 27. 8. Questionamento de todos os esquemas, de todas as ideologias, de todas as ciências, de tudo o que pretende ser uma explicação suficiente do real. 9. JUNG, Carl Gustav. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Dom Mateus Ramalho Rocha, trad. OSB, Petrópolis: Vozes, 1980, p. 4. 10. Brasil Seikyo, edição nº 1.211, 13 de fevereiro de 1993, p. 5. 11. O termo nações se refere ao local geográfico de um grupo étnico e sua tradição cultural (JENSEN, Tina Gudrun. Discurso sobre as religiões afro-brasileiras: da desafricanização para a reafricanização. Maria Filomena Mecabô, trad. REVER — Revista de Estudos da Religião, nº 1, 2001, p. 1). 12. Cada uma das divindades das religiões afro-brasileiras. Simbolizam as forças da natureza: o raio, o vento, a chuva, o mar, a floresta, a peste, a guerra, entre outras. 13. Iniciação é um ritual pelo qual alguém é admitido em uma religião ou em uma sociedade. É um conjunto de conhecimentos indispensáveis para que se possa conhecer, inteirar-se de um sistema religioso, filosófico, artístico ou, simplesmente, social. As religiões ou sociedades que adotam a iniciação são chamadas iniciáticas. 14. RIBEIRO, José. Cerimônias da Umbanda e do Candomblé. Rio de Janeiro: ECO, s/d., p. 117-118. 15. BOFF, 2001, p. 58-63. 16. Idem, ibidem. 17. The Lotus Sutra, Burton Watson, trad. Nova York: Columbia University Press, 1993, p. 117. 18. IKEDA, Daisaku. Desafio de uma Nova Era — Paz. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2001, p. 129. 19. Ibidem. 20. BUBER, Martin. Eclipse de Deus — Considerações sobre a relação entre religião e filosofia. Carlos Almeida Pereira, trad. Campinas,SP: Verus Editora, 2007. 21. Os Escritos de Nitiren Daishonin, v. 1, p. 2.
 
Fonte: Revista Terceira Civilização da Editora Brasil Seikyo
DEZEMBRO DE 2007 — EDIÇÃO Nº 472

Encontro de Daisaku Ikeda presidente da SGI (ONG budista) com o Presidente da Nigéria Olusegun Obasanjo

Presidente Olusegun Obasanjo da República Federal da Nigeria — levando o povo ao poder


O presidente Ikeda encontrou-se com Obasanjo em 22 de maio deste ano.

Papai, não seja chefe de Estado," implorou sua filha de nove anos, Iyabo.

Tornar-se o líder da nação era o que sua família mais temia, motivo pelo qual eles não ousavam falar muito no assunto.

Fez-se um silêncio total na sala. Todos sentados aguardavam ansiosamente o que o chefe da família, Olusegun Obasanjo, responderia.

Era fevereiro de 1976, e nessa época tornar-se o líder da Nigéria significava colocar a própria vida em risco. O chefe de Estado anterior, general Murtala Ramat Muhammed, havia sido assassinado, e sua morte fora causada justamente por ele ter tentado conduzir a nação do regime militar ao civil. O general Obasanjo era o segundo no comando. Havia uma probabilidade muito grande de que o próximo líder no governo teria o mesmo destino de seu predecessor.

"Você tem minha palavra, Iyabo", disse ele, finalmente. "Amanhã, renunciarei ao final da reunião do Conselho Supremo Militar e nos mudaremos para Abeokuta e viveremos uma vida tranqüila."

Essa havia sido sua decisão, e já havia iniciado os preparativos para a viagem. Mas ele não sabia o que os dias seguintes lhe reservavam.

Obasanjo abraçou cada um de seus cinco filhos. Era seu presente de despedida para eles, caso algo terrível lhe acontecesse. Obasanjo estava com 38 anos. Sua decisão de abrir mão da posição de chefe de Estado não havia sido tomada por temer por sua vida, mas porque estava profundamente descontente com a situação de seu país. "A Nigéria não é mais um país pelo qual valha a pena servir tendo em vista a maneira tão cruel como o general Muhammed foi recompensado pelos seus abnegados esforços à nação," insistiu ele aos membros do Conselho.

Quando ainda estavam sob o regime colonial, muitas nações africanas consideravam "independência" como uma espécie de palavra mágica. "Com a independência, os séculos de sofrimento e luta chegarão ao fim"; "Se conquistarmos a independência, tudo ficará bem", pensavam. Mas isso era apenas uma ilusão que não tardariam a perceber.

Mesmo após a independência, eles continuaram sendo dominados, embora de forma diferente, pelas nações estrangeiras. Uma pequena classe privilegiada aliou-se aos exploradores e com isso encheu seu próprio bolso.

Grupos de reformistas aplicavam um golpe de Estado após outro, mas cada novo governo acabava manchado pela mesma corrupção. Isso ocorria em toda a África. As duas potências que sustentavam a Guerra Fria valiam-se das violentas guerras civis para vender armas para todas as facções.

Após conquistar a independência da Grã-Bretanha em 1960, a Nigéria caiu vítima da terrível tragédia da guerra civil e a felicidade de seu povo parecia algo cada vez mais distante.

Naquela reunião do Conselho, foi ressaltado ao general Obasanjo que se ele não aceitasse o cargo de chefe de Estado, o poder cairia nas mãos dos rebeldes.

Ele não tinha mais nenhuma escolha. "Talvez seja meu destino", pensou, "Ou então, meu dever".

Quando sua pequena filha soube que o pai não pôde manter sua promessa, ela chorou inconsolavelmente.

Encontrei-me com Obasanjo pela primeira vez dezesseis anos depois desse episódio, na primavera de 1992. Ele estava acompanhado do embaixador da Nigéria no Japão, Mai-Bukar Garba Dogon-Yaro.

Obasanjo viajara ao Japão como representante da África para uma conferência sobre meio ambiente que se realizaria em Tóquio. Obasanjo atuou como chefe de Estado por três anos, de 1976 a 1979. Como havia prometido, acabou com o governo militar e introduziu uma constituição democrática que assegurava a soberania do povo e os direitos humanos fundamentais, estabelecendo um sistema presidencial de governo. Ele foi o primeiro líder nigeriano que deixou seu cargo para dar lugar à democracia.

Nessa primeira visita ao Japão, Obasanjo participou de uma reunião de dirigentes da Divisão Feminina e proferiu um discurso afirmando seu apoio ao nosso movimento cultural. "A cultura", disse ele, "é a força motriz em nossa vida. Sem cultura, não temos raízes". Seu discurso foi transmitido via satélite para todo o Japão.

Ele identificou o espírito budista com a rejeição ao servilismo e à opressão, e declarou ainda que o budismo possuía a força para elevar a espiritualidade da humanidade. Obasanjo demonstrou ser um líder digno, possuidor de uma mente aguçada e perspicaz e de um sorriso caloroso.

"Um líder deve ter raciocínio claro e objetivos próprios, caso contrário será manipulado pelos outros e acabará perdendo o rumo", disse ele.

O objetivo pessoal de Obasanjo era a educação. Durante seu mandato, tornou gratuita a educação nas escolas de ensino fundamental e construiu muitas universidades, com o desejo de que todos os jovens nigerianos tivessem acesso à educação.

Recepcionamos Obasanjo novamente naquele mesmo ano, em outubro de 1992, dessa vez na Universidade Soka, onde um grupo de estudantes da Associação para a Amizade Pan-Africana apresentou um coral em sua homenagem. Eles entoaram a canção nigeriana "Abeokuta", que é o nome do povoado em que Obasanjo cresceu.



Essa colina, essa terra —

É onde você nasceu,

Uma terra de riquezas e paz.

Sou feliz, aqui nos penhascos de Olumo.

Jamais te esquecerei,

Sempre o terei em meu coração.



"Abeokuta" significa "sob as rochas". Essa canção alude à lenda dos penhascos Olumo, que salvaram muitas pessoas que fugiam do massacre da guerra e iam se enconder entre suas rochas.

Os verdadeiros líderes devem ser como rochas que protegem as pessoas. Em nossa conversa, Obasanjo e eu concordamos quanto à veracidade do ditado nigeriano: "O telhado luta contra a chuva, mas os que se refugiam sob o telhado não têm consciência de que estão sendo protegidos."

Obasanjo nasceu em 1937 numa pequena vila próxima a Abeokuta, como filho de um próspero fazendeiro. Contudo, aos treze anos, a situação financeira da família mudou drasticamente. Com esse empobrecimento inesperado, ele teve de estudar sob circunstâncias cada vez mais difíceis.

O jovem Obasanjo ia aos bosques nas redondezas para apanhar lenha, ou então ia até as margens do rio para apanhar areia e vendia tudo o que conseguia para as companhias de construção. Ele também trabalhou para outros fazendeiros. Frente a essas dificuldades, toda vez que se sentia desencorajado, lembrava-se do lema de sua escola "Ajude a si mesmo", e então empenhava-se mais arduamente. Ele custeou seus estudos de ensino médio realizando todo tipo de trabalho.

A escola localizava-se em Abeokuta, e ocasionalmente sua mãe viajava de sua pequena vila para levar-lhe a pouca comida que conseguia reservar.

Obasanjo obteve excelentes notas e pretendia ser professor, mas continuava pobre como sempre. Uma das principais razões pelas quais decidiu ingressar na carreira militar foi que ali poderia continuar estudando gratuitamente. Não era o curso adequado para uma pessoa cujos colegas de classe consideravam o que menos afinidade tinha com a vida militar.

Então, Obasanjo viajou para a Inglaterra a fim de estudar na Academia Real Britânica de Engenharia Militar, onde recebeu uma menção honrosa por se destacar como melhor estudante da Comunidade Britânica em toda a história da instituição.

Quando ele ingressou nas forças armadas, não se atreveu a dizer para sua mãe que havia escolhido uma das profissões mais perigosas, pois sabia que ela desmaiaria de susto.

Será que os heróis estão fadados às tragédias e os honestos, à traição? O caminho da democracia iniciado por Obasanjo foi bloqueado por um golpe de Estado, e o governo militar foi restaurado. Uma vez mais, a nação foi assolada pela corrupção e os bens públicos usurpados. Em meados da década de 80, o padrão de vida da Nigéria esteve abaixo dos índices apresentados na década de 50, ou seja, antes da independência.

A Nigéria tinha uma população de quase 120 milhões de habitantes, a maior da África. Um de cada cinco habitantes da Região da África Subsaariana é nigeriano, posicionando a Nigéria entre as principais nações do continente. Desde tempos antigos, foi berço de culturas altamente desenvolvidas, como as de Nok e Ife, que remontam a dois mil anos. Sua música e arte também tiveram uma grande influência na Europa moderna.

A Nigéria é rica em petróleo. É uma bela terra e seu povo é maravilhoso. Mesmo assim, por que havia tanto sofrimento e pobreza? Devido à corrupção. "A corrupção é uma ameaça maior do que a Aids ao desenvolvimento africano," declara Obasanjo, que continuou a promover a democracia mesmo após ter se retirado da política. Ele vive fiel à sua crença de uma vida a serviço da humanidade.

Obasanjo lançou a Nigéria no palco mundial. Ele criou o Fórum e a Fundação de Líderes Africanos, trabalhou para a Unesco e mediou incansavelmente as negociações de paz entre Angola e Namíbia. Obasanjo chegou a ser indicado como candidato a secretário-geral das Nações Unidas.

Em 1986, como co-presidente do Grupo de Pessoas Eminentes da Comunidade Britânica de Nações Sul-Africanas, ele viajou para a África do Sul e visitou Nelson Mandela na prisão. O ato de Obasanjo, de entrar numa praia "exclusiva para brancos", como protesto contra a política do apartheid durante essa visita, foi muito comentado. Ele fez isso para mostrar ao mundo o absurdo do apartheid. Posteriormente, Mandela louvou Obasanjo como "um amigo especial cuja grandeza está acima de muitos que hoje ocupam altos cargos".

O líder nigeriano possui muitos amigos em todo o mundo e luta continuamente para evitar que a Nigéria não se isole da comunidade internacional.

Mas como os líderes políticos de seu país retribuíram seus esforços? Com a prisão.

Em 1995, o governo prendeu esse homem que continuamente defendeu a democracia. Ele foi sentenciado à morte. Vigorosos clamores do mundo inteiro fizeram com que a sentença fosse reduzida para quinze anos, e ele foi confinado à Prisão de Yola, que também era conhecida como "o inferno sobre a Terra".

Obasanjo permaneceu preso por mais de três anos. Por fim, com a morte do ditador que oprimia seu país, ele foi libertado. Mas o que ele encontrou ao sair da prisão foi uma nação dividida e praticamente destruída por líderes corruptos e gananciosos.

Obasanjo decidiu levantar-se uma vez mais, em prol de sua amada Nigéria. Seu lema na campanha presidencial era "O povo no poder". E, em fevereiro de 1999, foi eleito presidente.

Ele seria o valente líder que conduziria sua pátria rumo ao século XXI. Quando visitou o Japão dois meses após ser eleito, eu o recepcionei com profunda emoção. Ele abriu bem seus braços feliz pelo reencontro.

Louvei-o por sua inabalável convicção. Embora fisicamente debilitado devido ao tempo que passou na prisão, seu espírito jamais se abalou ou rendeu-se ao desespero. Obasanjo tinha uma forte fé e sabia que um dia seria libertado. Ele jamais abandonou sua luta de servir à humanidade. Um amigo lhe escreveu enquanto estava na prisão: "Você parece ter algo que nós, aqui fora da prisão, não temos." Cada palavra de Obasanjo está imbuída de forte fé e comprometimento com a vida.

O que é democracia?

Há líderes que não abandonam suas convicções políticas, mesmo que tenham de ser aprisionados em defesa delas. Mas há também líderes que só se preocupam com ganhos imediatos e mudam suas crenças com a mesma facilidade com que trocam de roupa. Em sua busca do poder, não têm remorsos manipular a verdade e a justiça, e tampouco possuem escrúpulos na hora de usar as pessoas. Como esses líderes ousam falar em democracia?

Se não fosse pelas pessoas dispostas a arriscar a vida por suas crenças, a democracia se transformaria em algo inerte. Por mais perfeitos que sejam os sistemas políticos ou as constituições, se não houver um espírito democrático, não passarão de meras formalidades ou práticas vazias. Um corpo sem alento é um corpo morto.

Obasanjo disse que quer infundir autoconfiança ao povo de seu país. Quer restaurar em cada nigeriano a fé em si mesmo, em seu governo e em seu país. O fervor com que ele pronunciou essas palavras me comoveu quase às lágrimas. Os japoneses podem aprender muito com a humildade de Obasanjo e com seu amor pelas pessoas.

É muito mais nobre incutir esperança no coração de uma pessoa, mirar sempre o futuro, não importando as humilhações que tenha de sofrer, do que deixar que um breve período de prosperidade lhe suba à cabeça e o convença de que a luta espiritual é irrelevante.

Os japoneses têm a tendência deplorável de desprezar o que chamam "terceiro mundo". Mas julgar uma nação unicamente pela sua riqueza nada mais é do que uma evidência da própria falta de civilização e de cultura. Hoje, o Japão paga um alto preço por ter tratado com tanta hipocrisia a importância do espírito.

Desde os tempos antigos, as culturas africanas possuem um profundo respeito e admiração pela maravilhosa força vital que permeia a natureza, a sociedade e tudo o que existe no universo. A cultura materialista de hoje chegou a um beco sem saída e a África detém a chave para uma transformação que conduzirá a uma cultura de vida.

O futuro, um glorioso futuro, aguarda pela África.

Obasanjo e eu conversamos a respeito do futuro. Falei-lhe de minhas esperanças quanto a criação de um Estados Unidos da África; e o novo presidente nigeriano compartilhou suas esperanças com relação aos intercâmbios educacionais. Há um provérbio nigeriano que diz: "A esperança é o pilar que sustenta o mundo."

Presenteei Obasanjo com um poema de minha autoria intitulado "O Sol Nascente da África — Um Tributo à Democracia".O poema inicia assim:



O Sol jamais se apaga!

— "Nada pode me obscurecer,

Por mais profunda que seja

a escuridão."



O Sol jamais retrocede!

— "O caminho de minha missão é imutável,

Por mais furiosas que sejam

as tormentas!"



O Sol jamais descansa!

— "Brilharei enquanto houver pessoas que busquem minha luz, Por mais pesadas que sejam as nuvens da exaustão!"



O poema é também um tributo à África, o "grande continente do Sol", e um tributo à Nigéria, uma nação desenvolvida em meio à luta pelos direitos humanos e que soube romper a escuridão, lançando a luz da esperança a iluminar o mundo inteiro.

Publicado no Seikyo Shimbun de 13 de maio de 2000.
E na Revista Terceira Civilização da Editora Brasil Seikyo em 2001
SETEMBRO DE 2001 — EDIÇÃO Nº 397
 
NOTA:
 
Quando mostrei a materia para o Ola, meu namorado Nigeriano, ele não chegou a ler, mas a reação ao ver a foto do presidente não foi boa, ele não concorda que o cara seja um bom presidente e que se preocupa com o povo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Dr. Mourão comentou num diálogo com Dr. Daisaku Ikeda "Quanto mais obscura e dolorosa for a situação, mais precisamos brilhar."

Se uma mulher deseja ter um filho...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"Se uma mulher deseja ter um filho, ela deve reverenciar e fazer oferecimentos ao Bodhisattva Percebedor dos Sons do Mundo e então ela dará à luz um menino agraciado com mérito, virtude e sabedoria. E se ela deseja ter uma filha, dará à luz uma menina com os traços da beleza, que no passado plantou as raízes da virtude e é amada e respeitada por muitas pessoas".
 
O Registro dos Ensinos Orais afirma: Os dois desejos referidos aqui são o desejo por um filho e o desejo por uma filha. O desejo por uma filha representa o desejo por uma recompensa secular. O desejo por um filho representa o desejo por recompensas espirituais. Da mesma forma, paz e segurança na presente existência é uma virtude pertinente ao desejo por uma filha, enquanto boas circunstâncias nas existências futuras é a virtude pertinente ao desejo por um filho.
 
O desejo por uma filha é representado pela filha do Rei Dragão e por ela ter  atingido o estado de Buda, o que comprova o princípio de que os sofrimentos do nascimento e da morte são nirvana. O desejo por um filho é representado pela iluminação de Devadatta, o que comprova o princípio de que os desejos mundanos são iluminação. Esses dois exemplos, por sua vez, confirmam o princípio de que uma pessoa pode atingir o estado de Buda na presente forma.

Nesta era em que Nitiren e seus seguidores, como praticantes do Sutra de Lótus, recitam o Nam-myoho-rengue-kyo, estão realizando tanto o desejo por um filho quanto o desejo por uma filha e assegurando tanto ao pai quanto à mãe atingir o estado de Buda.

Para o sofrimento

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Determinar além do seu estado de vida.

Além dos limites da sua mente.

Na confiança total à Lei Mística.

Guie seu objetivo através do Daimoku.

E não se condicione pelas circunstâncias da vida.

Não procure extrair conclusões lógicas baseadas nos eventos,

porque não existe nada de definitivo ou irreversível.

Considere os obstáculos e sofrimentos como grandes ocasiões.

Abrace o Gohonzon por toda a vida. Aconteça o que acontecer.

 

Daisaku Ikeda

Budismo Nitiren Daishonin, vídeo sobre o Nam-Myoho-Rengue-Kyo e os 10 estados de Vida!

domingo, 13 de julho de 2008

Gandhi King Ikeda: Community Builders

quarta-feira, 9 de julho de 2008

"A Legacy of Building Peace"

Three men, from three different cultures and continents, sharing the same common path of profound dedication and achievement
in improving the lives of all people. The exhibit features colorful photos, inspiring quotes, and factual information about Mohandas K. Gandhi, Martin Luther King Jr. and Daisaku Ikeda. Amidst chaotic times, they sought to forge an existence filled with dignity, freedom and happiness.

Building Peace Without Violence

The Gandhi-King-Ikeda exhibit is a internationally renowned exhibit extolling humanist virtues and its champions. Though Gandhi, King and Ikeda each came from different ethnic and religious backgrounds, they have all shared a common vision. They have each, in their respective lifetimes, fought for non-violence, human rights and world peace: Mohandas K. Gandhi led the campaign against the colonial rule of the British Empire, Martin Luther King fought against the injustices and prejudice built against people of color in America, and Daisaku Ikeda encourages millions of civilians in the world to live a life of dignity and to work for world peace.

Gandhi, King, and Ikeda are men who have lived with principle, and who have based their action on non-violent means. The unique idea of having the three figures together as an exhibit is of particular significance because it reminds us that peace and justice exist beyond all human-laid boundaries.






Parte III - Fundamentos do Budismo: No Ritmo do Universo

segunda-feira, 14 de abril de 2008

"O inverno nunca falha em se tornar primavera".1 Esta frase de Nitiren Daishonin ilustra bem a presença do ritmo nos fenômenos do Universo. A vida humana também é marcada de ritmos, de uma variedade deles. Quem ou o que empunha a batuta que rege essa grande e perfeita sinfonia?

 

Todos os fenômenos da natureza compõem-se de uma infinidade de ritmos. O historiador de Arte francês René Huyghe (1906-1997) especula que todas as matérias são feitas de energia e possuem uma vibração ou ritmo particular.

Por ritmo, entende-se todo movimento ou ruído que se repete a intervalos regulares.

É só observar ao redor para descobri-los. O ritmo está, por exemplo, no caminhar das pessoas pelas ruas, na chuva que cai, no vaivém das ondas. Se fechar os olhos e prestar atenção a si próprio neste exato instante, perceberá uma diversidade de ritmos também: o pulsar do coração, a respiração, o fluir do sangue pelo corpo, o piscar dos olhos e muitos outros.

A vida diária das pessoas também possui um ritmo. Normalmente, quando amanhece, como sob a regência de um maestro que movimenta sua batuta, começa o dia com os primeiros raios de sol. É hora de acordar, tomar café, locomover-se para o trabalho, executar as tarefas do dia na empresa ou escola e, ao final da tarde, é o momento de voltar para casa, jantar e dormir para, no dia seguinte, repetir praticamente as mesmas ações e situações.

O ritmo também é um dos elementos básicos da poesia, da música e de outras formas de expressão da arte.

Como se pode observar, o ritmo integra tudo o que existe no grande Universo. Faz-se presente na natureza, em todas as formas de vida e em suas funções orgânicas. Ele é o impulso ou o estímulo que caracteriza a vida.

Em "A sabedoria do Sutra de Lótus", Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional, comenta a esse respeito: "Certamente, há um ritmo no Universo. E o ritmo de um indivíduo pulsa em perfeita harmonia com ele. Parece-me que a vida, em essência, é uma expressão da ressonância harmoniosa entre o macrocosmo do Universo e o microcosmo de nossa vida".2 Com base nesse comentário de Daisaku Ikeda, o ritmo da vida humana está, em sua essência, em harmonia com o ritmo do Universo. Então, por que muitas vezes ocorre de as pessoas adoecerem, de nada do que planejaram dar certo a ponto de pensarem que o Universo inteiro está conspirando contra elas?

Segundo os ensinamentos do Budismo de Nitiren Daishonin, a doença é um dos quatro sofrimentos naturais da vida (os outros três são: nascimento, velhice e morte)3 pelos quais todos, sem exceção, passam, ou seja, constituem o próprio ritmo da vida. No entanto, há casos em que a doença é provocada por um descuido da própria pessoa. Tudo ocorre como conseqüência ou efeito de uma causa praticada pelo indivíduo. Assim, se algo não saiu conforme o esperado, há uma causa ou razão para isso. Com base nesse raciocínio, surgem as questões: uma pessoa pode alterar o ritmo de sua vida, da natureza que a rodeia? Ela pode fazer com que o Universo conspire ou não a seu favor? A resposta para essas questões é sim. Isso pode ser observado na degradação ambiental, nas mudanças súbitas do clima como efeitos da interferência do homem. Na saúde também, há vários problemas que poderiam ser evitados se o ritmo correto ou natural da vida fosse respeitado.

Ritmo e saúde

Segundo estudos do especialista em Fisiologia normal e patológica, Dr. José Anías Calderón, o ritmo dos seres vivos se desenvolve com o processo evolutivo, de acordo com sua adaptação ao meio ambiente. Por exemplo, o sinal da luz solar proporciona a sucessão da noite e do dia, as mudanças das estações, a flutuação da condição do tempo, assim como a interação entre os animais, e destes com seu hábitat, o que determina o ritmo vital dos seres vivos.

Dessa maneira, um grupo de animais adotam o regime de atividade noturna, com o sono e repouso diurno; outros, geralmente os mais desenvolvidos (incluindo os humanos) descansam à noite e entram em atividade de dia.

De acordo com esse regime diurno e noturno, desenvolvem-se neles seus ritmos alimentares, de sono, vigília, descanso e trabalho. Nos órgãos e sistemas dos seres vivos, tudo está vinculado entre si e subordinado ao ritmo do dia solar principalmente.

Atualmente mais de cem sistemas fisiológicos e aproximadamente trezentos processos e funções biológicas que possuem certa periodicidade, geralmente dentro das 24 horas do dia, são conhecidos.

Todos os sinais de luz, som, temperatura e demais fatores vitais que rodeiam as pessoas determinam o funcionamento rítmico de seu organismo. Está demonstrado que se esses sinais se modificam por 21 dias, determinarão mudanças nos ritmos do corpo.

Exemplos de alteração do ritmo podem ser observados em viagens longas, em que há mudança de fuso horário, e na troca de turnos no trabalho. Levam-se alguns dias até que as pessoas se acostumem à mudança nos horários, sentindo sono quando deveriam estar despertas e vice-versa.

Quando ocorrem alterações no ritmo, há perda de equilíbrio orgânico e aumentam as possibilidades de estresse e de doenças.

Ao contrário, quando as pessoas recuperam o ritmo da vida, conseguem realizar em duas horas o que antes levavam quatro.

Por essa razão, um alerta: cuidado com o ritmo acelerado e extremamente agitado do dia-a-dia. Atente para os seguintes pontos: organize sua vida com períodos de trabalho e de descanso estáveis, mantenha uma alimentação adequada e em horários regulares e procure ter um bom sono.

Esses cuidados com o ritmo podem ajudar a pessoa a chegar à velhice o mais sã possível.

Será impressão ou o tempo está passando mais depressa?

"Como o tempo voa!", "Parece que foi ontem!", as pessoas exclamam admiradas e, ao mesmo tempo, preocupadas ao verem que não conseguiram cumprir seus compromissos.

Essa sensação de que o tempo está passando mais rápido deixa as pessoas ainda mais ansiosas.

Na realidade, há uma aceleração da expansão do Universo e, conseqüentemente, do tempo. No entanto, isso ocorre em escalas que não podem ser sentidas pelos seres humanos.

A impressão de que o tempo está acelerando é mais uma conseqüência da percepção, da rotina em que as pessoas vivem. A sensação do tempo depende das experiências vivenciadas. A mente humana sente o tempo passar pelos movimentos percebidos ou da rotina e isso é registrado no cérebro. Ou seja, quanto mais habituais forem as ações ou os movimentos, mais rápido o tempo parecerá passar. Por exemplo: para um motorista principiante chegar a um lugar que não conhece bem, pode parecer uma eternidade. Ele tem de prestar atenção à troca de marchas, a tudo que ocorre ao seu redor para não causar ou sofrer acidentes, ao caminho que deve seguir para não se perder, aos sinais de trânsito. Numa segunda vez, todas essas ações se tornam mais fáceis, quase mecânicas para ele. Quanto mais ele as repetir, mais rápido o tempo lhe parecerá passar, a ponto de deixar de prestar atenção a detalhes de suas próprias ações.

Quanto mais as pessoas avançam na idade, mais são as experiências vividas e mais rápido os anos parecerão passar.

O tempo é o mesmo para todos. Um dia tem igualmente 24 horas. No entanto, são as pessoas que fazem o ritmo de sua vida diária.

No ritmo da Lei

O Budismo de Nitiren Daishonin elucida que tudo é regido pela Lei universal de Nam-myoho-rengue-kyo. Sinteticamente, nam é a transliteração da palavra sânscrita namas e significa "devotar a própria vida"; myoho, "Lei Mística"; rengue, "flor de Lótus" ou "simultaneidade de causa e efeito"; e kyo, sutra, ensinamento, a voz do Buda. Kyo significa também ritmo, sons e vibrações da vida que permeiam o Universo. Ainda, eternidade, continuidade da vida pelo passado, presente e futuro.4

Nesse sentido, quando uma pessoa recita o Nam-myoho-rengue-kyo, sua vida entra em perfeita harmonia com o Universo. Por que isso acontece?

Segundo os ensinamentos budistas, todas as pessoas possuem dez estados de vida: Inferno, Fome, Animalidade, Ira, Tranqüilidade, Alegria, Erudição, Absorção, Bodhisattva e Buda. De acordo com o estado de vida em que elas se encontram, conseguem influenciar o ambiente ou são influenciadas por ele. Elevar seu estado de vida é o objetivo primordial do budismo, para que manifestem a sabedoria de conduzir tudo ao seu redor de maneira correta e segura.

O Nam-myoho-rengue-kyo é a energia máxima do Universo. Ao recitá-lo, essa energia se manifesta na vida da pessoa e seu estado de Buda inerente é ativado. Quanto maior for a energia positiva, maior serão a força e a sabedoria manifestadas na vida de uma pessoa, proporcionando sua mudança interior e contribuindo para que outras pessoas façam o mesmo. O presidente Ikeda comenta: "No Budismo de Nitiren Daishonin, uma condição essencial para atingir a iluminação é a recitação da frase Nam-myoho-rengue-kyo. A esse respeito, o Buda diz: 'Praticar simplesmente os sete caracteres do Nam-myoho-rengue-kyo pode parecer limitado, mas como esta lei é a mestra de todos os budas do passado, presente e futuro, a mestra de todos os bodhisattvas do Universo e o guia que possibilita a todos atingirem a estado de Buda, sua prática é incomparavelmente profunda'. Convicto de que a suprema iluminação deve ser acessível a todos, Daishonin estabeleceu esse modo simples de prática que qualquer pessoa pode realizar e chegar à verdade absoluta".5

O Buda Nitiren Daishonin não revelou o Nam-myoho-rengue-kyo como energia máxima do Universo de forma aleatória. De acordo com seus ensinos, tudo no Universo está sujeito a um único princípio ou Lei. Compreendendo essa Lei, um indivíduo pode manifestar o potencial inerente em sua vida e atingir uma perfeita harmonia com seu ambiente.

Estudando profundamente o Sutra de Lótus, Nitiren Daishonin chegou à compreensão de que sua essência está contida na palavra Nam-myoho-rengue-kyo. Além disso, ele deu a essa Lei uma forma concreta ao inscrevê-la no mandala chamado Gohonzon para que as pessoas pudessem manifestar a sabedoria do Buda e atingir a iluminação. Em seu tratado intitulado "O objeto de devoção para a observação da mente", ele declara que ao recitar o Nam-myoho-rengue-kyo com fé no Gohonzon, a materialização da Lei universal, é possível revelar a própria natureza de Buda, pois, assim como as ondas de rádio, que são imperceptíveis aos olhos, mas que cruzam o mundo e se tornam audíveis na medida em que o receptor sintoniza a freqüência das ondas, o Nam-myoho-rengue-kyo possibilita que a vida da pessoa passe a vibrar na mesma freqüência harmoniosa do Universo.

Ainda segundo o Budismo de Nitiren Daishonin, todos os fenômenos estão sujeitos ao princípio de causa e efeito. Conseqüentemente, a atual condição de vida de uma pessoa é o resultado de todas as causas feitas no passado. Por meio da recitação do Nam-myoho-rengue-kyo pode-se criar a mais fundamental das causas, que contrabalançará os efeitos negativos do passado e conduzirá à felicidade absoluta.

Nesse sentido, para estar em ritmo com o Universo, é fundamental recitar o Nam-myoho-rengue-kyo. Nesta simples, porém, poderosa palavra, está contida toda a Lei que rege o Universo. Ao recitá-la, é como se pessoa estabelecesse um diálogo com o Universo e, assim, manifestasse a sabedoria para entrar em sintonia com ele e colocar sua vida na mesma órbita. Sobre isso, o presidente Ikeda escreveu: "As orações embasadas na Lei Mística não são abstratas. Nas profundezas da vida elas manifestam-se concretamente. Oferecer oração é o mesmo que conduzir um diálogo, um intercâmbio com o Universo. Quando oramos, abraçamos o Universo com nossa vida, ou itinen (determinação). A oração é uma luta para expandir nossa vida".6

É primordial estabelecer um ritmo de avanço na vida para que não haja arrependimentos futuros. Possibilitar que as pessoas sejam verdadeiramente felizes é o objetivo fundamental da prática budista. Todos podem entrar nesse ritmo. Mas, para isso, é preciso sair da zona de conforto e, então, dar um novo impulso na vida todos os dias, não se permitindo cair na rotina e tendo sabedoria para conduzir a vida num ritmo de alegria rumo à verdadeira realização.

O presidente Ikeda escreveu: "Todo o Universo está tocando um 'som maravilhoso'. O próprio Universo é uma sinfonia da vida, um coral cantando por todos os seres e fenômenos — uma serenata, um noturno, uma balada, uma ópera, uma suíte. O Universo toca todos os 'sons maravilhosos'. A base disso tudo é a Lei Mística. É o Nam-myoho-rengue-kyo. (...) Recitar Daimoku é como cantar uma obra musical".7

O ritmo frenético da vida não pára. O tempo parece passar cada vez mais rápido. É preciso ter muita sabedoria para aproveitar cada segundo e estar no ritmo de avanço do próprio Universo. Caso contrário, a pessoa pode se perder e não mais encontrar significado em sua existência. É justamente para isso não ocorrer que existe a prática budista.

NOTAS 1. The Writings of Nichiren Daishonin, pág. 536. 2. Brasil Seikyo, edição nº 1.424, 2 de agosto de 1997, pág. 3. 3. Leia mais a respeito na Terceira Civilização, edição nº 452, abril de 2006, págs. 6-15. 4. Leia mais a respeito no Especial "Lei Mística: o caminho para a felicidade absoluta". Terceira Civilização, edição nº 445, setembro de 2005, págs. 7-19. 5. Terceira Civilização, edição nº 445, setembro de 2005, pág. 8. 6. Apostila do Exame de Budismo de 1998, págs. 40-41. 7. Brasil Seikyo, edição nº 1.555, 13 de maio de 2000, pág. A3.

Ritmo e música

 

Musicalmente falando, a palavra "ritmo" sugere duas interpretações: uma sucessão de sons e silêncios organizada em sua duração (longos ou curtos) e o conjunto de sons dentro de um contexto temporal, caracterizando o que também pode ser chamado de gênero, tal como o samba, o rock, a valsa, e assim por diante.

O ritmo faz parte do nosso corpo a começar pelo batimento constante do nosso coração. Em função dessa característica orgânica, quando as notas musicais se organizam no tempo, formando um agrupamento de durações que se repetem, ocorre um verdadeiro fenômeno em nossa resposta corporal: sentimos vontade de dançar. É lógico que uma organização rítmica pode ser estimulante ou não, e isso vai depender de quem está produzindo esses sons.

Podemos dizer que o ritmo dentro de um contexto musical pode nos encaminhar a boas ou más sintonias. Da mesma maneira, um grupo de músicos que toca junto comunica o que há de mais verdadeiro na relação entre eles, também por meio da sintonia rítmica.

Já estive presente em apresentações musicais em que, num dado momento, apenas um percussionista concentrou e emocionou toda a platéia com seu ritmo vital. Nesse momento, o ritmo traduz a história, o sentimento e a cultura de quem está tocando. São apenas sons, sem melodia, organizados no tempo, que se transformam em plena vida.

Como digo aos meus alunos, a maioria crianças, a música toca o nosso coração quando sentimos o pulso da canção. Não existe teoria que substitua a escuta de uma boa música e um ambiente propício para que nosso corpo se solte e seja livremente conduzido pela combinação rítmica e melódica dos sons. Quando todos tiverem essa oportunidade e estimularem essa prática em seu dia-a-dia, certamente o mundo se tornará bem melhor.

Ritmo e ciência

 

Por meio dos estudos científicos, o homem tem procurado descrever os inúmeros fenômenos que ocorrem na natureza. Um exemplo clássico no campo da Física é a lei da gravidade. Por que os objetos caem? O que está por trás desse fenômeno? O famoso cientista Isaac Newton, observando os efeitos da força entre os corpos materiais, descreveu a lei da gravidade. Essa força tem explicado a manutenção das órbitas da Terra e dos outros planetas em torno do Sol, assim como a Lua em sua órbita ao redor da Terra.

Por outro lado, o homem, em busca da compreensão do que se passa no mundo das mínimas partículas deste Universo, vem revelando inúmeros mistérios que ocorrem em torno de um átomo. Sabe-se que cada tipo de átomo tem comportamentos específicos e, nesse sentido, os cientistas podem estudá-lo com muita precisão. Mesmo os elementos do nosso organismo são fundamentalmente constituídos de átomos com comportamentos específicos. Ainda nesse campo do mundo extremamente pequeno, por exemplo, Max Planck, físico alemão considerado o "Pai da Teoria Quântica", conseguiu descrever o fenômeno da emissão de luz de um corpo material. Sabe-se que hoje em dia a luz emite energias em pacotes muito bem definidos que são conhecidos como quanta.

Por meio do entendimento desses complexos fenômenos da natureza, o homem conseguiu desenvolver as mais sofisticadas tecnologias. Um exemplo disso é o avanço no campo da telecomunicação. O uso da telefonia celular foi possível depois que os mecanismos que ocorrem na transmissão de ondas eletromagnéticas foram desvendados.

Enfim, em nosso Universo existem inúmeros e complexos fenômenos na natureza. E os cientistas vêm aos poucos desvendando e elaborando explicações científicas mediante equações matemáticas que podem ser utilizadas em qualquer parte do planeta. Exatamente por esses fenômenos existentes em nosso Universo terem comportamentos muito bem definidos que podemos dizer que há um ritmo em nosso mundo, não somente no mundo invisível como também neste imenso mundo cósmico que funciona de forma perfeitamente fantástica e harmônica.

Ritmo e dança

 

O ritmo é um fator essencial para que a dança se desenvolva, pois ela não existe sem ele, embora se possa dançar sem música, deixando um vazio no ar.

Há duas conotações de ritmo: o ritmo da música em que se dança e o ritmo corporal, que está relacionado ao ouvido musical considerado afinado quando se dança dentro dos compassos musicais.

Em relação ao ritmo corporal, dentre as pessoas que dançam, existem aquelas que possuem ritmo e as que não o tem, e isso não é tão relevante quando não se tem a dança como profissão.

O profissional da dança tem como obrigação dançar no ritmo, no compasso, na cadência. Os demais podem aguçar sua percepção auditiva por meio de um treinamento. Dançar fora do ritmo é visualmente ruim e causa uma sensação de estranhamento para quem observa e isso pode ser melhorado aguçando a percepção musical auditiva. Para entrar no ritmo da dança, é necessário, entre outras coisas, aprender a ouvir e a perceber.

Do ponto de vista da dinâmica corporal, podemos utilizar os termos gregos em relação às batidas dos pés na marcação rítmica: "ársis" e "tésis". O primeiro significa levantar com o sentido de esforço e o segundo, pousar com o sentido de relaxamento. Assim, o silêncio poderá figurar como "ársis" ou "tésis" e, diferentemente do que geralmente se imagina, nota-se que no silêncio também há ritmo. A dança flamenca, por exemplo, utiliza-se muito desses silêncios para que haja a marcação rítmica entre uma batida de pé e outra. Podemos perceber, principalmente nessa modalidade, a sutileza do ritmo. Uma aceleração ou uma diminuição de velocidade faz uma enorme diferença. É o ritmo que dá vida a uma obra e é por meio dele que a vida se expressa.

Se pensarmos no fluir tranqüilo e contínuo de uma corrente de água; nos soldados em marcha; no tique-taque do relógio; no ritmo biológico e circadiano; no anda-pára de um congestionamento; nos batimentos cardíacos; no compasso de uma música, nos movimentos da dança, estaremos observando diferentes espécies de ritmo, cujo aspecto comum é a sincronia. Platão disse: "Vós distinguireis o ritmo no vôo de um pássaro, nas pulsações das artérias, nos passos de um dançarino, nos períodos de um discurso". O ritmo é um fator essencial para que uma dança ou a vida se desenvolva. Para finalizar, eu diria que o ritmo faz parte da vida e estará fora do contexto quem não buscar sintonia.

Ritmo biológico

 

Muitas vezes, nós nos deparamos com tantos afazeres que pensamos: "Bem que o dia podia ter umas quarenta horas!". Porém, para que o dia com esse tanto de horas fosse realmente produtivo, nosso organismo teria de passar por uma fase de adaptação, pois ele segue um ritmo, o ritmo circadiano (do latim circa diem, que significa "por volta de um dia"). Este ritmo regula todos os processos do corpo desde a digestão até a eliminação, desde o crescimento e a renovação das células, assim como a regulação de temperatura corporal, num ciclo de 24 horas.

O "relógio" que monitoriza todos esses processos encontra-se no cérebro, dentro do hipotálamo, acima da glândula pineal. Um dos hormônios produzidos por esta glândula, que influencia bastante o nosso dia-a-dia, uma vez que ele é indutor do sono, é a melatonina. A melatonina tem aumento de produção no início da noite e queda no final. É por esse motivo que temos sono à noite e, portanto, um dia com quarenta horas não renderia muito, pois teríamos de lutar contra o sono. Como a produção de melatonina é sensível à luminosidade (natural ou artificial), muitas pessoas que trabalham em turnos, de fato, conseguem se manter acordados de madrugada. Porém, cronicamente, podem apresentar fadiga, dores no corpo, cefaléia, irritabilidade e alterações cognitivas. Pessoas que viajam para locais de fusos horários diferentes também sofrem para se adaptar. Em geral, o organismo precisa de um dia para cada hora de fuso para se adaptar. Em outras palavras, pessoas que viajam para o Japão precisariam de doze dias só para o organismo se adaptar. É claro que isso nem sempre é viável, porém, é recomendável.

Respeitando-se nosso ritmo biológico, podemos obter o melhor das funções de nosso organismo, pois atualmente há estudos que investigam o aparecimento de várias doenças com a qualidade de sono/vida que as pessoas têm.

Tópicos de discursos de Daisaku Ikeda

 

"A Terra realiza a rotação em torno de seu eixo e ao mesmo tempo faz a translação em volta do Sol. O Sistema Solar, por sua vez, move-se no centro da galáxia conhecida como Via Láctea a uma velocidade de 220 quilômetros por segundo, ao passo que a Via Láctea também faz a rotação na forma de espiral. O Universo não fica parado nem por um momento. Ele se movimenta de acordo com um ritmo místico. E essa força eterna e suprema, essa Lei, esse ritmo é o Nam-myoho-rengue-kyo. Compreender essa Lei Mística significa possuir o supremo poder e sabedoria do Universo. Não há nada mais poderoso que isso. Conseqüentemente, não há nada a temer.

"O Universo está se movimentando. Todos os fenômenos estão num movimento dinâmico. Portanto, vamos fundir nossa vida vibrantemente com o ritmo do Universo e nos empenhar com toda a energia junto com a Soka Gakkai, a organização dedicada à concretização do desejo e do decreto do Buda, em prol da Lei e do Kossen-rufu. Todos os esforços que empreendemos para essa causa enriquecem nossa vida. Eles envolvem nossa família e nossos entes queridos em eterna boa sorte e benefícios. Por favor, creiam profundamente nisso."

(Brasil Seikyo [BS], edição nº 1.773, 27 de novembro de 2004, pág. A3.)


"Certamente, há um ritmo no Universo. E o ritmo da vida de um indivíduo pulsa em perfeita harmonia com ele. Parece-me que a vida, em essência, é uma expressão harmoniosa entre o macrocosmo do Universo e o microcosmo da nossa vida.

"Em termos de 'ritmo', o Universo em si produz um tipo de ritmo cósmico. É um ritmo benevolente que possibilita todos os seres vivos crescerem e se desenvolverem. Poderíamos até mesmo chamá-lo de 'comprimento de onda' de benevolência. Os seres vivos são 'receptores' que podem interceptar esse comprimento de onda. Não importando onde estejamos, quando 'sintonizamos' a 'freqüência' do estado de Buda, nossa vida é envolvida por essa benevolente melodia que nos infunde o espírito de desenvolver nossa vida e de auxiliar outros a fazerem o mesmo.

"Também poderíamos usar a imagem de um diapasão para descrever esse fenômeno. Se os senhores tivessem dois diapasões do mesmo comprimento de onda e fizerem vibrar um deles, o outro, mesmo que estivesse a uma certa distância, também começaria a vibrar espontaneamente.

"Continuando com essa analogia, quando o diapasão de nossa vida começa a vibrar com benevolência, então, mesmo que a princípio sejamos os únicos, outro diapasão começará a vibrar com a mesma benevolência. E embora no começo apenas dois ou três entrem no ritmo, outros com certeza seguirão. A benevolência possui certo 'comprimento de onda'; mas alguém tem de ser o primeiro a fazer vibrá-la. Entretanto, um diapasão não vibrará se for deixado sozinho num canto; para produzir som, deve-se colocá-lo de pé. O mesmo é verdadeiro com relação à nossa vida.

"No capítulo 'Surgimento da Torre de Tesouro', o encontro dos budas das dez direções é como vários diapasões começando a soar em uníssono como resposta às reverberações do diapasão do espírito de Sakyamuni para 'assegurar que a Lei perdure' (The Lotus Sutra, cap. 11, pág. 177). Isso ilustra perfeitamente o princípio da ressonância benevolente.

(BS, edição nº 1.424, 2 de agosto de 1997, pág. 3.)


"Enquanto recitamos com ressonância o Nam-myoho-rengue-kyo, o ritmo fundamental do Universo, trabalhamos, falamos e agimos em prol do desenvolvimento da sociedade, da paz mundial e da felicidade da humanidade. Não existe uma vida mais nobre do que essa. É por isso que pessoas de consciência do mundo inteiro estão buscando o budismo, a suprema Lei que permeia a vida e o Universo."

(BS, edição nº 1.638, 2 de fevereiro de 2002, pág. A3.)


Revista Terceira Civilização: DEZEMBRO DE 2006 — EDIÇÃO Nº 460

Parte III - Fundamentos do Budismo: Macrocosmo e microcosmo, uma busca pelo uno

Há hoje um consenso em todo o mundo, nos diversos campos da atuação humana, de que, de alguma forma, macro e microcosmo estão intimamente relacionados. De fato, afirmar o contrário seria ir contra quase todas as tendências existentes. Chega a causar admiração imaginar que, em eras anteriores, o homem considerava o macro e o micro como sistemas separados e sem nenhum vínculo entre si. A história dessa fenomenal mudança de visão é a própria história do pensamento ocidental, como se verá nas páginas seguintes. E ela aponta para uma direção: a de que a conscientização quanto a essa questão — mais especificamente, que não há motivos para uma distinção formal entre o macro e microcosmo — traz também uma maior conscientização do papel do homem neste vasto, enigmático, porém magnífico, Universo.

Em tudo, um pouco de tudo — a cisão entre o macro e o micro

Na história do Ocidente, foram os gregos os primeiros a procurar entender o que é o Universo e tudo o que nele existe. A idéia básica era simples: para se entender o todo (o macrocosmo), é preciso primeiro entender do que ele é feito. Assim, a busca pelo conhecimento do Universo iniciou com o estudo da menor estrutura de que ele seria feito (o microcosmo). Leucipo e Demócrito (com maior ênfase neste último) foram os primeiros a postular a existência de um vazio em meio ao qual se moveriam os átomos (as menores partículas existentes). Para eles, todo o Universo seria basicamente um vazio contínuo, incorpóreo e infinito entremeado por partículas corpóreas e descontínuas, os átomos.1

Atualmente, a ciência sabe com certeza que o átomo não é a menor partícula do Universo e se especula que o "vácuo" de que ele é feito não seja exatamente vazio [leia mais adiante]. No entanto, pode-se perceber já nesta alvorada do pensamento ocidental uma tentativa abrangente de compreender (ou pelo menos de se equacionar) o Universo, busca esta que originou um sem número de diferentes cosmogonias.

Leucipo, Demócrito e outros gregos são considerados os pais da filosofia ocidental. E logo se percebeu que a Filosofia, em sua hercúlea tarefa de universalizar o conhecimento, sozinha, era insuficiente. Aos poucos, o homem se deu conta de que era preciso se especializar. Assim, aos filósofos, antes ávidos em conhecer tudo, coube a missão de investigar as questões da alma. Alguns, como Hipócrates, que buscavam suas respostas na fisiologia humana, deram origem às Ciências Biológicas. Da mesma forma, a Matemática, Química, Astronomia e praticamente todos os grandes ramos das Ciências Naturais originaram-se dos esforços pioneiros dos filósofos gregos em sua busca pelo conhecimento.

Assim, a própria necessidade pela especialização do conhecimento — que, de fato, rendeu imensos progressos à humanidade —, criou o que poderia ser considerado uma compartimentalização do saber, gerando também a distinção entre o macro e o microcosmo.

Em busca do uno perdido: um eterno retorno



Mas algo estava errado. Algo sempre esteve errado. É como se bem no íntimo da alma humana, alguma coisa martelasse a mente do homem lembrando que a compreensão do Universo estava incompleta sem uma busca pelo uno, o que também pode ser entendido aqui, talvez, como uma ânsia por uma verdade universal ou um retorno à origem, ao estado original, quando tudo era perfeito.

Afinal de contas, a Natureza, com suas leis harmônicas, não cessava de dar pistas da existência de uma ordem natural em tudo. Por exemplo, desde a Antiguidade se conhecia fatos como a Razão Áurea [leia no box das págs. 8–9] e a mitologia e as artes jamais se cansaram de expressar sua preocupação pelo retorno do homem à origem: não seria o esforço de Adão e Eva de voltar ao Paraíso como um retorno à sua condição primeva? Os cavaleiros do rei Arthur não procuravam retornar o santo cálice ao seu local de origem? Moisés não prometeu retornar todo o seu povo à terra prometida? Mesmo clássicos modernos baseados em tradições mitológicas, como a trilogia O Senhor dos Anéis, apregoam o retorno à uma origem harmônica e perfeita.

Pode-se afirmar que, de certa forma, a religiosidade e as diferentes correntes místicas em geral de certa forma tentaram, ou tentam, ocupar uma função na psique humana que as próprias ciências naturais não foram capazes de preencher.

Na filosofia, Friedrich Nietsche, partindo de duas premissas básicas — o tempo é infinito e as forças são finitas — acreditava que a idéia do retorno era uma necessidade lógica. É dele a famosa Doutrina do Eterno Retorno, e são dele estas palavras: "Pensemos este pensamento em sua forma mais terrível: a existência, assim como é, sem sentido e alvo, mas inevitavelmente retornando, sem um final ao nada: o eterno retorno.

"Essa é a mais extrema forma do niilismo: o nada (o 'sem sentido') eterno!

"Forma européia do budismo: a energia do saber e da força coage a uma tal crença. É a mais científica de todas as hipóteses possíveis. Negamos alvos finais: se a existência tivesse um, teria alcançado."2 [NR: Os grifos são do próprio Nietzsche.]

No campo da psicanálise, Carl Jung foi um dos primeiros a identificar o retorno ao uno como uma necessidade psicológica natural do ser humano. Para ele, esse retorno seria a busca pelo Self (em alemão, Selbst): "Um novo centro ontológico e antropológico é retomado pelo Romantismo e pela psicologia junguiana, o qual é chamado de Selbst. Selbst é um substantivo alemão neutro que revela a concepção do homem que se funda sobre tudo que se denominou de substância ou sobre tudo que se denominou de espiritualmente essencial. O Selbst para os românticos seria o centro que se situa no coração espiritual de cada ser humano. Centro de convergência do 'de fora' e do 'de dentro', espaço da imaginação ativa, expressão da unidade dos opostos, e onde o microcosmo que é o homem une-se ao macrocosmo que é o divino ou a Natureza, o que define a eternidade da nossa existência e de nossa consciência."3

NOTAS 1. Cf. Pré-Socráticos, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Editora Nova Cultural, 1996, pág. 31. 2. Nietzsche, Coleção Os Pensadores, São Paulo, Nova Cultural, 1987, vol. II, pág. 163. 3. http://www.rubedo.psc.br/artigosb/visaopsi.htm

A Física moderna e a mente de Deus

 

Se, por um lado, as ciências naturais, a mitologia e as artes sempre intuíram a necessidade de um retorno ao uno — em outras palavras, a reunificação do macrocosmo e do microcosmo —, por outro lado, não se pode negar que atualmente as ciências exatas estão dando passos gigantescos nessa direção. Segundo alguns cientistas, é apenas uma questão de tempo.

E o principal protagonista disso é uma área do conhecimento científico relativamente nova, comparada às outras: a Física. Atualmente, os cientistas explicam o Universo com base em duas grandes correntes teóricas: a Teoria da Relatividade Geral e a Mecânica Quântica. Infelizmente, ambas descrevem o Universo apenas de forma parcial.

A Teoria da Relatividade Geral, elaborada pelo gênio alemão no início do século XX, descreve a força da gravidade e o Universo em grande escala. A Mecânica Quântica é a física das pequenas partículas, em escalas que chegam a um milionésimo de milionésimo de centímetro [leia no box das págs. 12–13]. Atualmente, os cientistas buscam uma terceira teoria que unifique as duas primeiras e que chamam de Teoria Quântica da Gravidade. Em outras palavras: a ponta de lança da Física moderna hoje é justamente encontrar uma linha de pensamento que descreva o macrocosmo e o microcosmo, ao mesmo tempo. Sem exageros, aquele que primeiro conseguir unificá-las certamente se juntará a Albert Einstein no panteão dos grandes intelectos da humanidade.

Einstein (que, aliás, rejeitava a idéia bíblica de Deus) afirmou que "Deus não joga dados", para defender a existência de uma ordem no Universo. Talvez numa alusão ao cientista alemão, Stephen Hawking, um dos mais importantes físicos teóricos da atualidade, assim descreveu sua própria busca por uma teoria unificada: "Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, compreensíveis para todos, e não apenas para uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de por que é que nós e o Universo existimos. Se encontrarmos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana — porque, então, conheceríamos a mente de Deus".4

A Mecânica Quântica ou Física Quântica e a Relatividade Geral revelaram um leque de novas e antes impensadas probabilidades. Com base particularmente em complexas equações matemáticas, esses novos ramos das ciências prevêem a existência de buracos negros, espaço–tempo curvo e pontes entre diferentes regiões do espaço–tempo (hoje denominadas de "buracos de minhoca"). Elas também afirmam que o espaço "vazio" poderia, na verdade, estar preenchido com pares de partículas e antipartículas virtuais. Essas partículas teriam comprimento, mas nenhuma outra dimensão, assemelhando-se a finíssimas cordas, o que ficou conhecido como Teorias das Cordas (por serem várias teorias que adotam essa hipótese).5

Mas nem tudo é consenso. Alguns autores mais críticos argumentam que, pelo fato de a Mecânica Quântica ser extremamente complexa e por haver um universo (literal e metaforicamente falando) entre ela e a Teoria da Relatividade Geral, algumas de suas conclusões poderiam levar a se afirmar quase tudo sobre tudo, por exemplo, a existência de fenômenos paranormais, como a telepatia, levitação, cura pela imposição de mãos, teleportação, e assim por diante.6

Um Universo sistêmico

No início do século XX, uma nova forma de pensar começou a tomar forma e a expandir-se para as artes e as ciências humanas, ganhando terreno em disciplinas como a Lingüística, a Psicologia, a História, a Semiótica, a Epistemologia, a Matemática e uma em especial: o Estruturalismo. Basicamente, é uma forma de pensar e um método de análise que examina grandes estruturas, as relações e funções entre seus componentes e as relações com outras estruturas. Nomes como Lévi-Strauss, Althusser, Merleu-Ponty, Bachelard, Foucault, Derrida, Adorno, Arendt, Eco, Peirce, Saussure, Barthes e muitos outros passaram a ser conhecidos de quase todos os estudantes de Ciências Humanas.7 Sua importância para se entender a cultura do século XX é tamanha que o Estruturalismo ganhou força de movimento, chegando a influenciar ideologias, como o Marxismo.

De certa forma, o Estruturalismo pode ser pensado como uma tentativa de se entender agregados de sistemas. Em outras palavras, estudar as relações entre as partes para se entender o todo. Poderia se pensar, com certa dose de ironia e liberdade de expressão, que a busca pelo conhecimento compartimentalizado iniciado com os gregos (para se entender o microcosmo), no século XX voltou-se a totalizar na busca da compreensão do macrocosmo.

A partir dessas premissas, autores mais recentes propuseram uma união do racional ao espiritual, surgindo assim as abordagens holísticas, justamente para se chegar a um denominador comum entre o macro e o microcosmo. Entre esses, um dos autores que mais se destacam é Fritjof Capra. Por exemplo, ele afirma: "A concepção sistêmica vê o mundo em termos de relações e de integração. Os sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às de unidades menores. Em vez de se concentrar nos elementos ou substâncias básicas, a abordagem sistêmica enfatiza princípios básicos de organização. Os exemplos de sistemas são abundantes na natureza. Todo e qualquer organismo — desde a menor bactéria até os seres humanos, passando pela imensa variedade de plantas e animais — é uma totalidade integrada e, portanto, um sistema vivo. As células são sistemas vivos, assim como os vários tecidos e órgãos do corpo, sendo o cérebro humano o exemplo mais complexo. Mas os sistemas não estão limitados a organismos individuais e suas partes. Os mesmos aspectos de totalidade são exibidos por sistemas sociais — como o formigueiro, a colméia ou uma família humana — e por ecossistemas que consistem numa variedade de organismos e matéria inanimada em interação mútua. O que se preserva numa região selvagem não são árvores ou organismos individuais, mas a teia complexa de relações entre eles."8

Assim, não haveria uma separação clara e definida entre o macrocosmo e o microcosmo, e eles poderiam ser concebidos como uma infinidade de sistemas entrelaçando-se, influenciando-se e formando um único e gigantesco organismo. O próprio uno em si.

Budismo: sabedoria universal

 

Para se entender qualquer filosofia oriental, é necessário, antes de mais nada, que o indivíduo se abstraia da estrutura greco–hebraica pela qual se apóia o modo de vida ocidental. Harold Bloom, um dos mais importantes e conhecidos críticos literários do mundo, acredita piamente que o homem do Ocidente pensa como os gregos (que, afinal, fundaram a civilização ocidental) e sente como os hebraicos (que, por sua vez, fundaram as mais importantes religiões do Ocidente).9

O budismo não é exceção. Somente a partir dessa abstração é possível entender plenamente conceitos como "existência e não-existência" (kuu), "três mil mundos num único momento da vida" (itinen sanzen) e outros. E somente assim é possível se admirar com as espantosas semelhanças entre esses conceitos e alguns mistérios que apenas recentemente as ciências, em particular a Física, vêm desvendando.

Einstein, com sua Teoria da Relatividade Geral, demoliu totalmente a noção convencional de tempo, ao explicar que ele é relativo, o que muito lembra o conceito de "tempo sem início" (kuon ganjo). A Mecânica Quântica, ao propor a existência de matéria e antimatéria e afirmar que o "vazio" do Universo não é exatamente "vazio", parece fazer ressoar o conceito budista de "existência e não-existência" (kuu).

Assim como a Física propõe a teoria do Big Bang para explicar a origem do Universo, o budismo também fala de um passado inimaginavelmente remoto, chamado gohyaku jintengo, e de uma causa original e um efeito original.

Conceitos como a unicidade do ser vivo e seu ambiente (esho funi) e da mente e seu corpo (shiki shin funi) são hoje bem assimilados pela Ecologia e pela Medicina [leia nos boxes das págs. 14 e 15].

O budismo também propõe um retorno do indivíduo (o microcosmo) ao seu "eu" original e macrocósmico —, em outras palavras, a manifestação do estado de Buda original de cada um. Além disso, a idéia de que todos os fenômenos no Universo estão relacionados entre si também encontra eco no budismo, que explica o conceito de origem dependente [engui, leia no box da pág. 15]. E os impressionantes esforços dos cientistas para elaborar uma Teoria da Gravidade Quântica (e, assim, unificar suas concepções de macrocosmo e microcosmo) encontram paralelo nos igualmente impressionantes esforços de Nitiren Daishonin de desvendar uma lei geral do Universo, unificando os mundos natural e espiritual, a qual ele denominou Nam-myoho-rengue-kyo.

Por outro lado, é grande o número de autores ocidentais que associam conceitos budistas ao pensamento ocidental. Além dos já mencionados Nietzsche, Jung, Capra, poderiam ainda ser listados autores como Arthur Schopenhauer, James Lovelock e outros.

O presidente da SGI, Daisaku Ikeda, assim explica a visão budista de macro e microcosmo: "O budismo afirma que a vida interior dos indivíduos corresponde à vastidão do 'cosmo exterior' do mundo dos fenômenos. O mundo interior vibra com a ilimitada energia da benevolência, amor, sabedoria, razão, assim como as várias emoções, impulsos e desejos. A cada instante, essa energia surge de dentro para criar, em interação com o cosmos que habitamos, um novo ser, um novo mundo. Quando nosso cosmo interior está em harmonia dinâmica, sua energia criativa é comunicada ao mundo em ondas de alegria, encontrando uma expressão concreta nas ações marcadas pela razão, sabedoria e benevolência. Em contraste, quando o cosmo interior perde seu ritmo essencial, sua energia assume aspectos destrutivos, agressivos e dominadores, como a cobiça e outros impulsos obscuros. Nessas circunstâncias, a vida interior é uma terra desolada. A desertificação exterior do planeta corresponde exatamente à desertificação espiritual da vida interior.

"A forma como nos relacionamos com nós mesmos (nossa vida interior) está intimamente ligada à forma como nos relacionamos com nossos companheiros (nossa vida na sociedade). E isso está inextricavelmente ligado a como nos relacionamos com o mundo natural. Seres humanos cujo ambiente interno é despojado e desolado caem facilmente presas de uma espécie de egocentrismo que inevitavelmente se manifesta em atos de dominação, exploração e destruição nos mundos social e natural.

"Mas o inverso é igualmente verdade. A natureza íntima e mutuamente interativa da ecologia da Terra, da sociedade humana e da vida interior dos indivíduos significa que a influência harmonizadora da benevolência e da sabedoria que brota de dentro do indivíduo pode ter um efeito transformador positivo até mesmo nos problemas em escala global. A chave para a transformação é a vontade consciente nas profundezas da vida do indivíduo.

"Focando inicialmente nossa vida interior — nosso relacionamento com nós mesmos — o budismo revela e ilumina a lei de causalidade que governa os processos pelos quais tanto os padrões positivos (criativos) quanto os negativos (destrutivos) são registrados e as energias potenciais armazenadas na profundeza de nossa vida. Ao mesmo tempo, o budismo objetiva direcionar a luz da sabedoria budista para o exterior, para revelar a natureza verdadeira e original de todos os fenômenos e gerar suas possibilidades mais criativas, incluindo as sociedades e culturas humanas.

"O mundo fenomenal constitui uma grande rede de elementos mutuamente interativos e sobrepostos, entrelaçados por meio dos fios da causalidade. Essa rede de relacionamento mútuo estende-se para o exterior, abrangendo os mais distantes limites do Universo. Dessa forma, o budismo vê todos os fenômenos do Universo — não somente aqueles que são explicitamente vivos do ponto de vista biológico — como partes integrantes da vida, como entidades 'vivas'."10

Cada vez mais, ciência e budismo parecem chegar a uma convergência de idéias e conceitos sobre os grandes mistérios do Universo. A Física, e em especial a Teoria da Gravidade Quântica, oferece perspectivas animadoras. Mas, aonde essa jornada humana para se entender a ordem do Universo levará? Que resultados trará? Ainda é cedo para respostas. De concreto, sabe-se apenas que essa é a mais fantástica jornada já empreendida pelo esforço humano em todos os tempos. Só essa jornada já valerá a pena.

Notas 4. Hawking, Stephen e Mlodinow, Leonard. Uma Nova História do Tempo. Rio de Janeiro, Ediouro, 2005, pág. 145. 5. Todos esses conceitos encontram-se no livro de Hawking & Mlodinow. 6. Cf. Toben, Bob e Wolf, Fred Alan. Espaço–Tempo e Além, Rumo a uma Explicação do Inexplicável — A Nova Edição. São Paulo, Editora Cultrix, 1982. 7. Uma introdução didática do pensamento estruturalista pode ser encontrada em Fifty Key Contemporary Thinkers — From Structuralism to Postmodernity, John Lechte, Londres e Nova York, Routledge. 8. Capra, Fritjof. O Ponto de Mutação. São Paulo, Editora Cultrix, 1997, pág. 260. 9. Cf. Bloom, Harold. Onde Encontrar a Sabedoria. São Paulo, Editora Objetiva, 2005, pág. 50. 10. SGI Quarterly, abril de 2006, págs. 12–13.

Razão áurea

O homem sempre teve necessidade de estar ligado a crenças divinas e de buscar a origem do Universo, tentando encontrar nas respostas suas próprias raízes. Para tanto, procurou ordenar tudo que o rodeava. Dessa busca, pode-se dizer, chegou-se à razão áurea, também chamada de proporção áurea, razão de ouro, número de ouro, número áureo ou divina proporção. É uma constante transcendente que tem sido motivo de estudo desde os mais remotos tempos e representa, segundo os estudiosos, a mais agradável proporção entre dois segmentos ou duas medidas. Essa proporção foi identificada como sendo equivalente a 1,618, e convencionou-se chamá-la de Phi ( ), em homenagem ao arquiteto grego Fídias (Phidias), construtor do Partenon e que utilizou o número de ouro em muitas de suas obras.

Não se sabe ao certo quem começou a estudar esse misterioso número. A primeira definição dessa proporção aparece no livro II dos Elementos de Euclides, mas muitos acreditam que este se baseou em estudos anteriores de Theodoro de Cyrene ou de Pitágoras.

Como pode ser visto, o número Phi não é objeto exclusivo da Geometria. Sua utilização é freqüente em pinturas renascentistas. Este número está envolvido com a natureza do crescimento e pode ser encontrado na proporção em conchas (o náutilo, por exemplo), seres humanos (o tamanho das falanges, ossos dos dedos), plantas e em inúmeros outros exemplos que envolvem a ordem de crescimento.

O homem também se valeu da razão áurea para construir inúmeras obras e monumentos (outros exemplos famosos além do Partenon são as pirâmides do Egito), para compor peças musicais (há artigos que a relacionam às composições de Mozart, Beethoven e Schubert) por ser o número que expressa a mais perfeita relação de harmonia já conseguida pelas mãos humanas. Ainda hoje, faz-se presente nos estudos e criação de novos produtos para que sejam visualmente atrativos.

No entanto, torna-se difícil separar a eterna procura por relações com as divindades, iniciada pelos gregos, com relações matemáticas concretas. Em muitas situações não há respostas claras para questões sobre o surgimento da razão áurea em alguns elementos. Será que ela aparece por ser realmente importante ou é apenas uma "coincidência" forçada pelo homem? Essa incerteza, no entanto, é o que a torna ainda mais fascinante.

Se o ponto C é tal que AB/AC = AC/CB, então AB/AC = AC/CB = Phi

Euclides definiu a razão a partir de um segmento e usou essa razão para calcular áreas, construir o pentágono regular, o icosaedro e o dodecaedro.

Física Quântica

 

A Física Quântica é uma teoria elaborada pelo físico alemão Max Planck em 1900, portanto, há mais de um século. No entanto, ainda hoje causa muitas discussões entre físicos e filósofos. Quando Plank estudava a emissão de luz de um material, observou que, em certas temperaturas, a luz dava saltos de uma intensidade para outra. Pelo conhecimento da época, a intensidade da luz deveria variar continuamente. Mas os resultados da experiência teimavam em contrariar tudo o que era afirmado até então. Plank descobriu que a energia não é absorvida ou gerada de modo contínuo, mas sim em pequenos "pacotes", que batizou de quantum (ou quanta, no plural), palavra que significa quantidade, em latim. Na realidade, Planck não tinha a intenção de romper com a física tradicional, ou seja, a física clássica, mas apenas resolver um problema. Por ser uma teoria totalmente inédita, levou quase trinta anos para ser bem-definida, exigindo o trabalho dos físicos mais brilhantes do século XX, incluindo Albert Einstein. Os quanta só ganharam reconhecimento quando Einstein, em 1905, demonstrou cientificamente que eles realmente existiam e, mais tarde, ensinou como usá-los para gerar os poderosos raios laser que hoje em dia têm impacto de valor inestimável.

As aplicações desta teoria vêm ocorrendo continuamente. Na Física Quântica, em determinadas circunstâncias os elétrons encontram uma barreira extremamente fina e há probabilidade de que eles simplesmente a ignorem e sigam em frente, o que é chamado efeito túnel. Seria apenas mais uma descoberta teórica se, em 1981, uma equipe do laboratório da IBM em Zurique, na Suíça, não tivesse transformado essa maluquice do elétron num aparelho de enxergar átomos, o microscópio de efeito túnel. O invento valeu a Gerd Binnig e Heinrich Rohrer o Prêmio Nobel de Física, em 1986, e levou a um avanço extraordinário na indústria de componentes eletrônicos.

Planck certamente não poderia imaginar a contribuição que sua descoberta teria para os dias de hoje. A teoria quântica está presente na vida cotidiana de todos, por exemplo, em telefones celulares, CD players, computadores e em inúmeros equipamentos eletrônicos utilizados na atualidade. Foi também decisiva para os grandes avanços práticos e teóricos em áreas como Astronomia, Medicina, Química e Biologia. Na Biologia, os cientistas procuram relacionar alguns efeitos quânticos no cérebro através das redes neurais.

Seus conceitos ainda geram discussões acerca da forma como se vê o comportamento dos elétrons que constituem o átomo e que faz parte do universo em que todos vivem.

Em termos de teoria, é possível entender melhor os fenômenos desconhecidos do Universo, como a teoria do Big Bang. Na verdade, a tentativa de explicar os resultados experimentais de um comportamento da matéria implicou em uma nova teoria que revolucionou a forma de compreender a natureza do Universo.

Colaboração: Ricardo Yoshioka, vice-coordenador do Departamento de Cientistas (Depac) da Coordenadoria Cultural da BSGI.

Unicidade do ser vivo e seu ambiente (esho funi)

 

O princípio da unicidade do ser vivo e seu ambiente (esho funi) significa que a vida (sho) e seu ambiente (e) são inseparáveis (funi). Funi significa "dois no fenômeno, mas não dois na essência", ou seja, embora as pessoas percebam as coisas como algo separado delas, há uma dimensão de sua vida que é uma com o Universo. No nível mais fundamental da vida, não há separação entre o ser e o ambiente. Esse nível fundamental é chamado de realidade última e foi definido por Nitiren Daishonin como Nam-myoho-rengue-kyo.

Unicidade do corpo e da mente (shiki shin funi)

 

 

 

 

 

 

 

 

Origem dependente (engui)

 

Este conceito budista ensina que toda vida está inter-relacionada, que nada existe isoladamente.

Literalmente, o termo engui quer dizer "surgimento em conexão". Em outras palavras, todos os seres e fenômenos existem ou ocorrem somente por causa de sua relação com outros seres ou fenômenos. Tudo no mundo vem a existir em resposta a causas e condições.

Sakyamuni usou a imagem de dois feixes de junco encostados um no outro para explicar a origem dependente. Ele descreveu como os dois feixes podem manter-se de pé enquanto estiverem apoiados um no outro.

A vida dos seres desenvolve-se de forma dinâmica, numa sinergia de causas internas (personalidade, experiência, perspectiva sobre a vida, entre outras) e as condições externas e relações imediatas. Cada existência individual contribui para criar o ambiente que sustenta todas as outras existências.

O cânone budista apresenta uma parábola que mostra como todos os fenômenos se inter-relacionam gerando uma harmonia perfeita e sutil: "Suspensa no alto do palácio de Indra, o deus budista que simboliza as forças naturais que protegem e nutrem a vida, está uma enorme rede. Uma brilhante jóia está ligada a cada nó da rede. Cada jóia contém e reflete a imagem de todas as outras jóias da rede, que brilha com magnificência em sua totalidade".1 Essa descrição ilustra o conceito de origem dependente, expondo a simbiose do microcosmo e do macrocosmo, que se unem como um único organismo.

NOTA 1. Terceira Civilização, edição nº 345, maio de 1997, pág. 16.

JULHO DE 2006 — TC EDIÇÃO Nº 455